Entrevista de Charles Pennaforte ao G1:Al-Qaeda pós-Bin Laden


02/05/2011 12h48 – Atualizado em 02/05/2011 13h34

Desafio da al-Qaeda será definir líder e novos planos, dizem especialistas

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/05/desafio-da-al-qaeda-sera-definir-lider-e-novos-planos-dizem-especialistas.html

‘É como a hidra grega, corta-se a cabeça, mas outras surgem’, diz professor.
Osama Bin Laden foi morto no Paquistão, segundo governo dos EUA.

Tahiane Stochero Do G1, em São Paulo

A morte de Osama Bin Laden vai exigir que o grupo terrorista al-Qaeda supere dificuldades em sua própria estrutura para definir um novo líder e planos de ação para o grupo, segundo especialistas ouvidos pelo G1.  Eles afirmam ainda que a morte do líder pode motivar ataques pulverizados, já que a capacidade de coordenação do grupo está, ao menos, temporariamente afetada.

Para o general da reserva Alvaro Pinheiro, especialistas em terrorismo e com formação nos Estados Unidos, a morte de Bin Laden é uma perda inestimável para a organização, que tinha o líder como “um alvo de alto valor estratégico”. Segundo o oficial, a organização está “enfraquecida”.

“Os maiores quadros operacionais da al-Qaeda estão se extinguindo, sendo mortos ou desertando ao longo dos anos no Iraque e no Afeganistão. A morte de Bin Laden representa uma forte golpe na organização, pois ele era um homem carismático, com poder político surpreendente”, disse o general.

Argemiro Procópio, professor titular de relações internacional da Universidade de Brasília, comparou a morte de Bin Laden à Hidra de Lerna da mitologia grega. “A al-Qaeda é como a hidra grega. Você corta uma cabeça, surgem várias”, diz ele.  “A al-Qaeda é uma rede de muitos pontos e nós espalhados pelo mundo. Cortaram com muito atraso, de 10 anos após o 11 de Setembro, a cabeça, mas muitas outras podem surgir. Em termos simbólicos, representa muito”, diz o professor.

O mundo árabe islâmico enfrenta um momento conturbado, com muitos grupos brigando entre si e envolvidos em revoltas em vários países. Há um tribalismo que não foi desarticulado e com o tempo eles podem se unir para lutar juntos e um novo líder, emergir”
Argemiro Procópio, professor titular de relações internacional da Universidade de Brasília

Segundo Procópio, o mundo árabe não pensa como os ocidentais, “que fazem uma reunião e decidem o sucessor”. “O mundo árabe islâmico enfrenta um momento conturbado, com muitos grupos brigando entre si e envolvidos em revoltas em vários países. Há um tribalismo que não foi desarticulado e com o tempo eles podem se unir para lutar juntos e um novo líder, emergir”, diz.

Conforme o general Pinheiro, o egípcio Ayman al-Zawahri, o número 2 da cadeia de comando, vinha sendo preparado por Bin Laden para assumir a rede terrorista. Al-Zawahri era o coordenador da área militar da rede e “vinha tomando as principais decisões estruturais desde que ficou conhecido que Bin Laden tinha problemas graves de saúde”, disse o especialista. Ele é apontado também pelos militares americanos como sucessor de Bin Laden.

Especialista em terrorismo, o tenente-coronel do Exército Alessandro Visacro, autor do livro “Guerra Irregular”, diz que “tudo indica que Al-Zaawhri será o sucessor”. “A dúvida é sobre a capacidade operacional da al-Qaeda hoje. Quando vivo, Bin Laden já era um mito. Morto, ele pode virar agora um mártir para os revolucionarios”, diz.

Especialista em terrorismo, o tenente-coronel do Exército Alessandro Visacro, autor do livro “Guerra Irregular”, diz que “tudo indica que Al-Zaawhri será o sucessor”. “A dúvida é sobre a capacidade operacional da al-Qaeda hoje. Quando vivo, Bin Laden já era um mito. Morto, ele pode virar agora um mártir para os revolucionarios”, diz.

Pinheiro diz que, agora, “a ameaça é transnacional” e apesar de estar com pouco poder, células da al-Qaeda podem retaliar a morte de seu líder não diretamente nos Estados Unidos, mas em países aliados. “Tem gente em todo o mundo que está chorando que Bin Laden morreu. Não acredito em retaliação armada, devido à perda da capacidade operacional nestes 10 anos, mas locais vulneráveis, como embaixadas americanas no Oriente Médio, podem ser atingidas”, afirma o especialista.

Aliados como alvo
Doutor em ciência política pela Universidade de Tel Aviv, Samuel Feldberg afirma que “representações comerciais americanas em qualquer país do mundo, ou seus aliados, podem ser alvo”.

“A imagem moral da al-Qaeda era representada pelo Bin Laden e agora pode haver uma pulverização de ataques terroristas pelo mundo em locais sensíveis”, diz Feldberg.

Apesar do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ter dito que a operação que matou Bin Laden teve apoio do governo paquistanês, Feldberg diz que “não foi confirmado por nenhum serviço de inteligência paquistanês a participação”. “Foi uma concessão que Obama fez ao Paquistão, pois a operação foi à revelia dos serviços militares paquistaneses”, disse ele.

O diretor da CIA, a agência de espionagem norte-americana, Leon Panetta, afirmou nesta segunda-feira que a rede terrorista deve “quase certamente” tentar vingar a morte de Osama bin Laden. “Apesar de Bin Laden estar morto, a al-Qaeda não está. Os terroristas quase certamente vão tentar vingá-lo, e nos devemos -e vamos- permanecer vigilantes e resolutos”, afirmou Panetta, que esteve à frente da coleta de informações para a operação que matou Bin Laden.

No ponto político, a morte de Bin Laden é uma grande derrota para o terror. Ele representava o fundamentalismo da al-Qaeda. Com certeza haverá retaliações”
Charles Pennaforte, diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais

Esconderijo
Especialistas apontam a peculiaridade de Bin Laden não estar escondido em cavernas de Tora Bora, na fronteira entre o Paquistão e Afeganistão, onde há anos ele era procurado e onde foi realizada uma operação pelos Estados Unidos que quase resultou em sua captura, denominada Operação Anaconda.

Bin Laden foi morto em uma casa protegida em Abbotabad, próximo a Islamabad, a capital do Paquistão, onde fica localizada a Academia Militar do Exército do Paquistão.

“No ponto político, a morte de Bin Laden é uma grande derrota para o terror. Ele representava o fundamentalismo da al-Qaeda. Com certeza haverá retaliações”, disse o diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (Cenegri), Charles Pennaforte.

“Não acredito que este fato venha a interferir na revolta no mundo árabe e no processo de democratização da África, pois eles raramente citam a al-Qaeda. Mas pode haver focos de insurgência surgindo no Oriente Médio e retaliações contra Israel, aliado aos Estados Unidos”, acrescentou Pennaforte.

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