{"id":998,"date":"2015-04-16T09:29:08","date_gmt":"2015-04-16T12:29:08","guid":{"rendered":"http:\/\/charlespennaforte.pro.br\/portal\/?p=998"},"modified":"2015-08-19T16:59:21","modified_gmt":"2015-08-19T19:59:21","slug":"o-fim-de-um-capitulo-da-guerra-fria-a-reaproximacao-entre-os-eua-e-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/?p=998","title":{"rendered":"O Fim de um Cap\u00edtulo da Guerra Fria: a Reaproxima\u00e7\u00e3o entre os EUA e Cuba"},"content":{"rendered":"<p>Obama recupera o protagonismo na AL<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O colapso do bloco sovi\u00e9tico em 1989 e o desaparecimento da URSS em 1991, representou um grande impacto para economia cubana. A forte depend\u00eancia econ\u00f4mica da URSS foi o principal para a entrada do pa\u00eds no chamado \u201cPer\u00edodo Especial\u201d. Por outro lado, no campo pol\u00edtico, \u201co regime castrista n\u00e3o conseguir\u00e1 manter o controle dentro de um quadro de profunda recess\u00e3o econ\u00f4mica e at\u00e9 mesmo de pen\u00faria social\u201d, diziam os comentaristas internacionais mais alarmistas.<\/p>\n<p>Mesmo com a sa\u00edda de Fidel Castro do poder por motivos de sa\u00fade em 2006, dezenas de an\u00e1lises sobre o fim do regime surgiram. E mais uma vez a maior parte delas estavam equivocadas.<\/p>\n<p>A <i>d\u00e9b\u00e2cle<\/i> sovi\u00e9tica trouxe efeitos econ\u00f4micos jamais vistos na hist\u00f3ria revolucion\u00e1ria cubana. Com uma economia essencialmente prim\u00e1ria e dependente da ajuda externa, o governo se viu totalmente sem divisas para comprar os insumos necess\u00e1rios para a dinamiza\u00e7\u00e3o da economia no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>Sem a prerrogativa de \u201cparceiro estrat\u00e9gico\u201d da agora R\u00fassia, o petr\u00f3leo, principal fonte energ\u00e9tica do pa\u00eds, passou a ser adquirido a pre\u00e7os praticados no mercado internacional. Com a economia ainda baseada na planifica\u00e7\u00e3o o colapso foi inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O governo cubano come\u00e7ou a preparar o povo para os problemas econ\u00f4micos. Na pr\u00e1tica, a maioria da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava vivendo a crise em seu dia a dia. O Partido Comunista Cubano denominou o momento de \u201cPer\u00edodo Especial\u201d. E realmente era.<\/p>\n<p>Havana conseguiu manter o seu bloco hist\u00f3rico e a sua coes\u00e3o social apesar do surgimento de manifesta\u00e7\u00f5es contra o regime, sendo a principal delas ocorrida entre julho e novembro de 1994, o ano mais dif\u00edcil para o pa\u00eds desde a famosa Crise dos M\u00edsseis de 1962.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o sufocada pela crise que n\u00e3o conseguiu fugir para os EUA foi encarcerada ou mantida sob controle pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o do governo cubano. Ali\u00e1s, os chamados \u201cdireitos humanos\u201d, tornaram-se o \u201ccalcanhar-de-aquiles\u201d do governo cubano.<\/p>\n<p>A burocracia cubana se adaptou \u00e0 nova realidade e reavaliou o modelo econ\u00f4mico baseado exclusivamente na planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Avaliou-se ser imposs\u00edvel manter uma estrutura econ\u00f4mica planificada, que se sustentou enquanto vinculada a exist\u00eancia de generosos subs\u00eddios que n\u00e3o viriam mais, dentro de um novo contexto ideol\u00f3gico (a supremacia da vis\u00e3o e do modelo neoliberal norte-americano).<\/p>\n<p>Ao procurar reverter os efeitos da derrocada sovi\u00e9tica, a burocracia cubana utilizou-se de uma boa dose de pragmatismo e de sa\u00eddas econ\u00f4micas \u201cheterodoxas\u201d: flexibilizou a economia, procurando atrair capitais internacionais produtivos da Uni\u00e3o Europeia e criou um mercado agropecu\u00e1rio baseado na oferta e procura para aumentar a produ\u00e7\u00e3o de alimentos no mercado interno.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1002\" aria-describedby=\"caption-attachment-1002\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/charlespennaforte.pro.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Obama_Cuba_2_3267579b.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1002 size-full\" src=\"http:\/\/charlespennaforte.pro.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Obama_Cuba_2_3267579b.jpg\" alt=\"Raul Castro e Barack Obama\" width=\"620\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Obama_Cuba_2_3267579b.jpg 620w, https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Obama_Cuba_2_3267579b-300x187.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1002\" class=\"wp-caption-text\">Raul Castro e Barack Obama<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>At\u00e9 o que era crime deixou de s\u00ea-lo: a posse da moeda norte-americana (setembro de 1993). A aceita\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar, a cria\u00e7\u00e3o da moeda convers\u00edvel (CUC) e do Euro, configuram uma pr\u00e1tica heterodoxa.<\/p>\n<p>Algo parecido, em termos gerais, com a \u201cvia chinesa\u201d, de Deng Xiaoping, de moderniza\u00e7\u00e3o da economia no final dos anos 1970. Ou, para os mais ortodoxos, semelhante \u00e0 NEP leninista. Na pr\u00e1tica, a \u201cnova pol\u00edtica\u201d cubana procurou adaptar o pa\u00eds \u00e0 nova realidade ideol\u00f3gica e econ\u00f4mica mundial.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da falta de petr\u00f3leo, a falta de alimentos era um grave problema. Com a compra total da produ\u00e7\u00e3o camponesa pelo governo a pre\u00e7os congelados, os produtores camponeses cubanos n\u00e3o teriam nenhum est\u00edmulo para produzir e ao mesmo tempo a baixa produtividade afetava a oferta.<\/p>\n<p>Para romper com essa letargia produtiva, em setembro de 1993, o governo autorizou o com\u00e9rcio particular, favorecendo rapidamente a exist\u00eancia de 150.000 empresas individuais e familiares. Dentro da mesma l\u00f3gica, autorizou a venda de metade da produ\u00e7\u00e3o camponesa no \u201cmercado livre\u201d, atrav\u00e9s da oferta e procura. Anualmente, o governo estipulava uma meta produtiva e o que excedia pode ser vendido livremente. Eram criados os Mercados Agropecu\u00e1rios.<\/p>\n<p>A \u00e1rea voltada para produ\u00e7\u00e3o de alimentos cresceu desde a implanta\u00e7\u00e3o do Per\u00edodo Especial, atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos ecologicamente corretos em virtude da necessidade: n\u00e3o h\u00e1 dinheiro para compra de pesticidas, adubos etc (Blackburn, 2000).<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o cubana foi modificada para atrair capitais estrangeiros. A chamada \u201cLei 77\u201d (06\/09\/1995), passou a permitir que o investimento estrangeiro no pa\u00eds chegasse aos 100% e que os lucros sejam remetidos ao exterior. Os setores de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e defesa ficaram de fora dos investimentos estrangeiros.<\/p>\n<p>E como n\u00e3o poderia deixar de ser surgiram contradi\u00e7\u00f5es entre os que possu\u00edam moedas estrangeiras (d\u00f3lar e euro), CUC (moeda cubana convers\u00edvel) e o peso cubano. Uma importante dicotomia entre ideologia\/pr\u00e1tica socialista se consolidou na sociedade cubana, alimentando o surgimento de \u201cclasses sociais\u201d dentro de uma estrutura social oficialmente igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o se tratava de comparar somente com o modelo da velha estrutura social sovi\u00e9tica dos burocratas que possu\u00edam melhores bens de consumo, por exemplo. Mas sim, grupos sociais que conseguem acumular recursos suficientes para um padr\u00e3o de \u201cclasse m\u00e9dia\u201d e que, n\u00e3o s\u00e3o necessariamente membros do e<i>stablishment<\/i> pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Dentro do contexto em que ocorreu a liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, o Partido Comunista Cubano (PCC) manteve a linha de n\u00e3o dividir o seu poder com qualquer outra agremia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>No final dos anos 1990, a ascens\u00e3o de Hugo Ch\u00e1vez ao poder na Venezuela trouxe um al\u00edvio para Havana. A aproxima\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica entre o Pal\u00e1cio de Miraflores e Havana garantiu in\u00fameras parcerias econ\u00f4micas, principalmente no campo energ\u00e9tico (PENNAFORTE, 2013).<\/p>\n<p>A venezuelana foi extremamente generosa. Algumas estimativas apontavam que, em 2005, aproximadamente entre 20 mil e 25 mil barris eram praticamente \u201cdoados\u201d pelos venezuelanos, representando uma economia que chegar\u00e1 a USD 6-8 bilh\u00f5es at\u00e9 2020. Como o consumo cubano \u00e9 de 120 mil barris\/dia e o a sua produ\u00e7\u00e3o interna \u00e9 de 80 mil barris\/dia, Havana consegue reexportar entre 40-50 mil barris\/dia, aumentando as suas reservas cambiais em moeda forte.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia para os cubanos, no curto prazo, \u00e9 a capacidade de atenuar a d\u00e9bil estrutura econ\u00f4mica que n\u00e3o possui nenhuma diversifica\u00e7\u00e3o, e a obten\u00e7\u00e3o de divisas. Por\u00e9m, o que poder\u00edamos chamar de \u201cefeito colateral\u201d para Havana \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o da mesma depend\u00eancia do pa\u00eds, tal como ocorria nos tempos sovi\u00e9ticos. Tal depend\u00eancia torna Cuba vulner\u00e1vel \u00e0s tentativas de mudan\u00e7as pol\u00edticas levadas a cabo regularmente pela oposi\u00e7\u00e3o venezuelana com apoio de organiza\u00e7\u00f5es norte-americanas (MONIZ BANDEIRA, 2014) que possam ocorrer na Venezuela em um per\u00edodo p\u00f3s-chavismo.<\/p>\n<p>O reatamento das rela\u00e7\u00f5es com os EUA vem em boa hora para a Havana. A chegada de investimentos e o aumento do fluxo de turistas norte-americanos proporcionar\u00e3o mais divisas para o pa\u00eds e a dinamiza\u00e7\u00e3o da economia com reflexos para a melhoria do n\u00edvel de vida popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fim da press\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica sobre Havana j\u00e1 n\u00e3o era sem tempo e tornou-se anacr\u00f4nica desde a derrocada sovi\u00e9tica. Os europeus, ao desrespeitarem a pol\u00edtica externa de Washington, assumiram uma posi\u00e7\u00e3o de destaque nos investimentos na ilha.<\/p>\n<p>Mais do que um \u201cgesto de boa-vontade\u201d, a reaproxima\u00e7\u00e3o com a ilha caribenha \u00e9 sinal de bons investimentos para os EUA que est\u00e3o bem atr\u00e1s dos europeus e, inclusive, de brasileiros na abertura da economia cubana.<\/p>\n<p>Em um momento de enfraquecimento do chavismo na Venezuela, a diminui\u00e7\u00e3o do embargo sobre o Cuba \u00e9 muito bem-vinda. Por outro lado, sem o \u201cfantasma\u201d do bloqueio econ\u00f4mico o governo cubano n\u00e3o ter\u00e1 mais motivo para justificar o controle pol\u00edtico rigoroso sob o argumento de combater um \u201cinimigo externo\u201d.<\/p>\n<p><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<ul>\n<li>BLACKBURN, Robin. Batendo o Martelo em Cuba. In: ContraCorrente \u2013 o melhor da New Left Review em 2000. Rio de Janeiro, Editora Record, 2000.<\/li>\n<li>GONZALEZ, Gerardo. Las relaciones interestatales entre Cuba y el Caribe en los a\u00f1os 90: retos y perspectivas. Habana, In: Cuadernos de Nuestra America, vol. XI, n\u00ba 21, enero\/junio, 1994.<\/li>\n<li>JARAMILLO, Isabel. La seguridad de Cuba en los a\u00f1os 90. Habana, In: Cuadernos de Nuestra America, vol. XI, n\u00ba 21, enero\/junio, 1994.<\/li>\n<li>PENNAFORTE, Charles. Movimentos Antissist\u00eamicos na Sistema-Mundo Contempor\u00e2neo: o Caso Venezuelano. Rio de Janeiro, Cenegri Edi\u00e7\u00f5es, 2013.<\/li>\n<li>MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Segunda Guerra Fria \u2013 Geopol\u00edtica e Dimens\u00e3o Estrat\u00e9gica dos Estados Unidos. Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2013.<\/li>\n<li>MONREAL, Pedro &amp; RUA, Manuel. Apertura y reformas de la economia cubana: las transformaciones institucionales (1990-1993). Habana, In: Cuadernos de Nuestra America, vol. XI, n\u00ba 21, enero\/junio, 1994.<\/li>\n<li>TABIO, Luis Rene Fernandez &amp; CASTRO, Soraya. Estados Unidos-Cuba: la pol\u00edtica econ\u00f3mica de la confrontaci\u00f3n. Habana, In: Cuadernos de Nuestra America, vol. XI, n\u00ba 21, enero\/junio, 1994.<\/li>\n<li>VANDERBUSH, Walt &amp; HANEY, Patrick J. Policy toward in the Clinton Administration. New York, In: Political Science Quaterly, v. 114, n\u00ba 3, Fall 1993.<\/li>\n<\/ul>\n<p>http:\/\/mundorama.net\/2015\/04\/16\/o-fim-de-um-capitulo-da-guerra-fria-a-reaproximacao-entre-os-eua-e-cuba-por-charles-pennaforte\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Obama recupera o protagonismo na AL<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":999,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[45,43,1],"tags":[16,62,37,17],"class_list":["post-998","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autor","category-internacional","category-primeira-pagina","tag-america-latina","tag-cuba","tag-eua","tag-geopolitica-latino-americana"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/998","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=998"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/998\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1004,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/998\/revisions\/1004"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/999"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=998"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=998"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}