{"id":865,"date":"2015-03-11T11:27:45","date_gmt":"2015-03-11T14:27:45","guid":{"rendered":"http:\/\/charlespennaforte.pro.br\/portal\/?p=865"},"modified":"2015-08-19T16:59:56","modified_gmt":"2015-08-19T19:59:56","slug":"o-sujeito-desamparo-e-hedocapitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/?p=865","title":{"rendered":"O Sujeito, Desamparo e Hedocapitalismo"},"content":{"rendered":"<p>Em tempos de \u00a0hiperconsumo o reencontro com o sentido de sua Exist\u00eancia pode ser uma sa\u00edda para o Hedocapitalismo.<!--more--><\/p>\n<p>A vit\u00f3ria ideol\u00f3gica do modelo &#8220;neoliberal individualista&#8221; sobre o &#8220;socialista coletivista&#8221; \u00e9 uma das principais caracter\u00edsticas do atual momento da sociedade contempor\u00e2nea capitalista ocidental. \u00a0No campo econ\u00f4mico, \u00a0&#8220;Desde os anos 1980, o capitalismo entrou em um novo ciclo de funcionamento, marcado pelo desmantelamento dos antigos controles regulamentares que limitavam o mercado concorrencial&#8221; (LIPOVSTKY, 33:2011).<\/p>\n<p>A retomada radical do individualismo e do liberalismo \u00e9 uma das marcas do nosso atual\u00a0per\u00edodo.<\/p>\n<p>Se at\u00e9 os anos 1990 ainda predominava a ideia de uma sociedade baseada na perspectiva da solidariedade social cuja base era a influ\u00eancia de\u00a0metanarrativas (ideologias\/discursos que possuem a capacidade de explicar o mundo como o marxismo, por exemplo), o que ocorreu desde ent\u00e3o foi a substitui\u00e7\u00e3o deste ide\u00e1rio pela dimens\u00e3o individualista em seu est\u00e1gio mais puro. Ou seja, a vis\u00e3o capitalista com uma dimens\u00e3o &#8220;hiperconsumista, hedonista e flu\u00edda&#8221;. A P\u00f3s-Modernidade estaria configurada apesar das cr\u00edticas de te\u00f3ricos com Fredric Jameson. Segundo Jameson n\u00e3o haveria &#8220;p\u00f3s-modernidade&#8221;, mas sim um novo est\u00e1gio do capitalismo: o &#8220;Capitalismo Tardio&#8221;.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 \u00a0que a \u00a0exist\u00eancia humana parece se deparar com o \u00a0Vazio. \u00a0E tal Vazio deve ser preenchido de alguma forma: pela posse de da mercadorias, pela busca busca incessantes de metas profissionais\/pessoais e pela utiliza\u00e7\u00e3o de mecanismos artificiais de indu\u00e7\u00e3o \u00e0 felicidade (drogas e \u00e1lcool). N\u00e3o que isso seja novo, pelo contr\u00e1rio. Mas o contexto est\u00e1 relacionado a uma din\u00e2mica ligada ao hiperconsumo.<\/p>\n<p>Em uma sociedade que &#8220;obriga&#8221; o indiv\u00edduo a obter o sucesso a qualquer custo &#8211; \u00a0sendo que na sociedade capitalista \u00e9 imposs\u00edvel todos obterem o sucesso -, alguns n\u00e3o conseguem encarar\u00a0o fracasso. E sucumbem. H\u00e1 tamb\u00e9m os que conseguem o &#8220;sucesso&#8221; mas n\u00e3o diminuem o seu Vazio. E sucumbem \u00a0tamb\u00e9m diante da infelicidade existencial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Ningu\u00e9m melhor do que Nietzsche conseguiu teorizar a ang\u00fastia do homem moderno diante da &#8220;morte de Deus&#8221;. Mais nada \u00e9 verdadeiro, mais nada \u00e9 bom: quando os valores superiores perderam o direito de dirigir a exist\u00eancia, o homem ficou sozinho com a vida. Enquanto o sentimento de vazio aumenta, multiplicam-se comportamentos inebriantes para escapar \u00e0 noite de um mundo sem valor, ao abismo da falta de objetivo e de sentido. (&#8230;)<\/p>\n<p>Na verdade o desnorteio hipermoderno aumenta paralelamente com excresc\u00eancia do universo tecno-midi\u00e1tico-mercantil e com o estilha\u00e7amento dos enquadramentos coletivos, a individualiza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, deixando os indiv\u00edduos \u00e0 merc\u00ea de si mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Gilles Lipovstky<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o \u00a0advento da\u00a0Modernidade (capitalista) alteraria \u00a0o <em>modus vivendi<\/em> social e traria nova implica\u00e7\u00f5es para o ser humano.\u00a0Weber considerou que o que marcaria a modernidade seria o\u00a0&#8220;desencantamento do mundo, o esvaziamento dos deuses e a racionaliza\u00e7\u00e3o crescente da exist\u00eancia forjada pelo discurso da ci\u00eancia&#8221; (BIRMAN, 18:2007).<\/p>\n<p>Como assinala Birman, &#8220;a sociedade p\u00f3s-moderna pode ser caracterizada, em contrapartida, tanto pelo conceito de <em>cultura do narcisismo<\/em>, segundo a leitura aguda do norte-americano Larsch, quanto pela categoria da <em>sociedade do espet\u00e1culo<\/em>, de acordo com a interpreta\u00e7\u00e3o do franc\u00eas Debord &#8220;(84:2007).<\/p>\n<p>Com a Psican\u00e1lise Freud se defrontou com os dilemas da modernidade (o mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o, por exemplo) \u00a0e seus impactos sobre o psiquismo na virada do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX. Contudo, vivemos ainda hoje sob o impacto da sociedade capitalista por meio de novas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>Alguns autores v\u00eam conseguindo captar estas novas dimens\u00f5es do capitalismo e\u00a0merecem\u00a0ter as suas ideias analisadas. S\u00e3o eles: o franc\u00eas Gilles Lipovetsky e o polon\u00eas Zigmunt Bauman.\u00a0O que se pretende aqui \u00e9 trazer uma vis\u00e3o <em>an passant<\/em>\u00a0 dos seus trabalhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_866\" aria-describedby=\"caption-attachment-866\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/charlespennaforte.pro.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/ng1275237.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-866 size-medium\" src=\"http:\/\/charlespennaforte.pro.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/ng1275237-300x179.jpg\" alt=\"Gilles Lipovtsky (1944)\" width=\"300\" height=\"179\" srcset=\"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/ng1275237-300x179.jpg 300w, https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/ng1275237.jpg 485w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-866\" class=\"wp-caption-text\">O fil\u00f3sofo franc\u00eas Gilles Lipovetsky (1944)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Gilles Lipovesky possui uma abordagem muito interessantes para explicar \u00a0a atual fase capitalista e que ele aponta\u00a0como\u00a0<em>hipercapitalista<\/em>. E como tal estar\u00edamos em um mundo<em> hipermoderno<\/em>. Este mundo hipermoderno seria caracterizado pelo:<\/p>\n<ul>\n<li>Hipercapitalismo<\/li>\n<li>Hipertecniza\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>Hiperindividualismo<\/li>\n<li>Hiperconsumo<\/li>\n<\/ul>\n<p>A despeito das cr\u00edticas sobre vivermos atualmente\u00a0na \u00a0p\u00f3s-modernidade ou em um \u00a0&#8220;capitalismo tardio&#8221; (Fredric Jameson), Lipovetsky visualiza um &#8220;exacerbamento&#8221;, uma &#8220;radicalidade&#8221; no capitalismo. Da\u00ed o \u00a0sufixo grego &#8220;hiper&#8221; (hyp\u00e9r)\u00a0para nos dar a ideia de &#8220;excesso&#8221; atualmente. Nietzche havia nos apontado a &#8220;morte de Deus&#8221; para o homem moderno, rec\u00e9m-entrado na din\u00e2mica capitalista do s\u00e9c. XIX. Em tempos de ci\u00eancia e t\u00e9cnica, a perspectiva metaf\u00edsica perderia o seu sentido.<\/p>\n<p>Assim, a atividade humana social se depara com as solicita\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis de serem solucionadas pelo excesso de demandas geradas pelo atual momento. \u00a0No \u00e2mbito familiar as rela\u00e7\u00f5es parentais, por exemplo, sofreram altera\u00e7\u00f5es significativas. A fam\u00edlia tradicional deu lugar h\u00e1 n\u00facleos menores onde a figura paterna foi substitu\u00edda pela m\u00e3e ou n\u00e3o existe. Um cen\u00e1rio diferente da sociedade ocidental dos s\u00e9culos XIX e XX.<\/p>\n<p>Com Zygmunt Bauman\u00a0\u00a0(polon\u00eas naturalizado brit\u00e2nico) \u00a0que possui um obra de f\u00f4lego e que sem d\u00favida alguma est\u00e1 dentro do \u00e2mbito da Sociologia, Antropologia, Ci\u00eancia Pol\u00edtica e at\u00e9 \u00a0mesmo da Psican\u00e1lise, o que verificamos \u00e9 o\u00a0prazer r\u00e1pido.\u00a0O Sujeito contempor\u00e2neo est\u00e1 submetido a l\u00f3gica hedonista.<\/p>\n<p>Em sua obra<em>\u00a0Modernidade L\u00edquida<\/em>, Bauman atesta que a sociedade moderna atravessa desde o individualismo at\u00e9 as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, fam\u00edlia e comunidade, uma altera\u00e7\u00e3o espa\u00e7o-temporal de percep\u00e7\u00e3o, ou seja, o\u00a0\u00a0tempo e o espa\u00e7o deixam de serem concretos e absolutos para serem &#8220;l\u00edquidos&#8221; e &#8220;relativos&#8221;. A &#8220;fluidez&#8221; \u00e9 uma das marcas contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Cada loja, independentemente do que est\u00e1 em suas prateleiras, do que anuncia, do objeto que vende, todas essas lojas s\u00e3o farm\u00e1cias. Elas vendem medicamentos para problemas da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Zigmunt Bauman<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_867\" aria-describedby=\"caption-attachment-867\" style=\"width: 292px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/charlespennaforte.pro.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zigmunt-bauman-002.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-867 size-full\" src=\"http:\/\/charlespennaforte.pro.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/zigmunt-bauman-002.jpg\" alt=\"O soci\u00f3logo polon\u00eas-brit\u00e2nico Zigmunt Bauman (1925)\" width=\"292\" height=\"280\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-867\" class=\"wp-caption-text\">O soci\u00f3logo polon\u00eas-brit\u00e2nico Zigmunt Bauman (1925)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com dezenas de livros sobre a tem\u00e1tica, Bauman os fornece outras perspectivas para entender \u00a0a realidade atual. \u00a0E fica a pergunta o que fazer para sair deste quadro desolador no qual o Sujeito \u00e9 penalizado? Se Freud apontava que a necessidade de Deus estava ligada ao &#8220;desamparo paterno&#8221;, o que pensar com a hipertecniza\u00e7\u00e3o, hiperindividualismo e hiperconsumo? E o pior: quando Deus deixa de existir? Em uma sociedade na qual a supremacia da ci\u00eancia \u00e9 absoluta a perspectiva divina perde sentido\u00a0e com ela os par\u00e2metros organizacionais da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em minha concep\u00e7\u00e3o uma boa sa\u00edda para o Sujeito resistir aos impactos do que eu denomino <em>hedocapitalismo<\/em> (capitalismo do prazer) \u00e9 voltar-se para a compreens\u00e3o do seu papel no mundo. E para tal a perspectiva existencialista \u00e9 fundamental. Sem analisarmos o que fazemos e o que devemos fazer para ter uma exist\u00eancia menos traum\u00e1tica e vazia, o Sujeito continuar\u00e1 \u00a0no Vazio.<\/p>\n<p>E como o Vazio deve ser preenchido, todas as formas para preench\u00ea-lo s\u00e3o v\u00e1lidas. Inclusive as nocivas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BAUMAN, Zigmunt. Modernidade L\u00edquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2005.<\/p>\n<p>BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade &#8211; A psican\u00e1lise e as novas formas de subjetiva\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2007.<\/p>\n<p>LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal &#8211; Ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo..S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 207.<\/p>\n<p>___________ &amp; SERROY, Jean. A Cultura mundo &#8211; Resposta a uma sociedade desorientada. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de \u00a0hiperconsumo o reencontro com o sentido de sua Exist\u00eancia pode ser uma sa\u00edda para o Hedocapitalismo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":981,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,46,39],"tags":[60,50,48],"class_list":["post-865","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-primeira-pagina","category-psicanalise","category-sociedade","tag-hedocapitalismo","tag-pos-modernidade","tag-psicanalise"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/865","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=865"}],"version-history":[{"count":35,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/865\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":984,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/865\/revisions\/984"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/981"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=865"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=865"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=865"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}