{"id":790,"date":"2015-01-10T09:32:02","date_gmt":"2015-01-10T12:32:02","guid":{"rendered":"http:\/\/charlespennaforte.pro.br\/portal\/?p=790"},"modified":"2015-01-15T09:37:09","modified_gmt":"2015-01-15T12:37:09","slug":"a-velhice-sob-a-otica-psicanalitica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/?p=790","title":{"rendered":"A Velhice sob a \u00f3tica psicanal\u00edtica*"},"content":{"rendered":"<p>O \u201cdesprendimento da velhice\u201d, acho que \u00e9 assim que se chama, deve estar ligado a um desvio decisivo na rela\u00e7\u00e3o das duas puls\u00f5es postuladas por mim. A mudan\u00e7a que ocorre talvez seja muito not\u00e1vel. Tudo \u00e9 t\u00e3o interessante quanto era antes, os ingredientes tampouco muito diferentes. Mas falta uma esp\u00e9cie de resson\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Sigmund Freud<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Freud, Sigmund, <em>apud <\/em>Mucida, \u00c2ngela. O Sujeito n\u00e3o envelhece. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2004, p. 21.)<\/p>\n<p>A Psican\u00e1lise em seus prim\u00f3rdios n\u00e3o tratou com maior profundidade a velhice, em parte, pelo pr\u00f3prio Freud n\u00e3o ter se dedicado a quest\u00e3o. A princ\u00edpio devemos ter conta que a \u201cvelhice\u201d \u00e0 \u00e9poca de Freud n\u00e3o era algo comum. Nesse per\u00edodo, 50 anos de idade j\u00e1 era considerado \u201cidoso\u201d. No campo te\u00f3rico, como assinala Dorli Kamkhagi<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>,<\/p>\n<p>(&#8230;) A concep\u00e7\u00e3o freudiana desse per\u00edodo de vida \u00e9 que, basicamente, tal qual ocorreria ao longo da vida adulta, o sujeito reeditaria de modo desigual e combinado os modelos de fases de desenvolvimentos infantis, num movimento incessante de atualiza\u00e7\u00f5es frente \u00e0s novas viv\u00eancias e \u00e0s altera\u00e7\u00f5es do corpo. De espec\u00edfico haveria apenas a decad\u00eancia f\u00edsica e a consci\u00eancia de que o fim se aproxima. N\u00e3o h\u00e1 em sua obra uma teoria expl\u00edcita do envelhecimento e os termos \u201cvelhice\u201d e \u201cenvelhecimento\u201d pouco ocorrem em seus textos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Freud, outros grandes te\u00f3ricos da psican\u00e1lise como Melanie Klein e Donald Winnicott, por exemplo, n\u00e3o se dedicaram a desenvolver estudos espec\u00edficos sobre a velhice. A perspectiva freudiana da velhice era marcadamente negativa, estando associada \u00e0 decrepitude progressiva.<\/p>\n<p>Para Freud<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>, especificamente, o seu m\u00e9todo terap\u00eautico n\u00e3o era poss\u00edvel de ser aplicado em pessoas com mais idade.\u00a0 De forma mais clara, o envelhecimento seria um per\u00edodo de resist\u00eancia e de posterior capitula\u00e7\u00e3o aos limites que sem imp\u00f5em \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o da libido objetal.<\/p>\n<p>O envelhecimento provocaria um abandono progressivo do investimento no objeto. Consequentemente ocorreria uma regress\u00e3o ao narcisismo prim\u00e1rio que levaria a libido \u00e0s fases pr\u00e9-genitais (fase anal, principalmente) e o retorno ao investimento no Eu.<\/p>\n<p>Como resultado final a velhice resultaria na diminui\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es genitais (sexuais), culminando na regress\u00e3o pulsional e no retorno do recalcado, provocando perturba\u00e7\u00f5es na psique.<\/p>\n<p>S\u00e1ndor Ferenczi<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a> tamb\u00e9m possu\u00eda tal teoriza\u00e7\u00e3o semelhante. Para ele, as neuroses no envelhecimento seriam derivadas por uma dificuldade em alterar a distribui\u00e7\u00e3o da libido. O homem ao envelhecer teria a tend\u00eancia de retirar as imana\u00e7\u00f5es da libido dos objetos de seu amor, direcionando o seu interesse libidinal ao pr\u00f3prio ego. De modo geral, a consolida\u00e7\u00e3o das defesas impediria o acesso ao material inconsciente, dificultando um resultado terap\u00eautico satisfat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Karl Abraham<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>, disc\u00edpulo e colaborador de Freud, abordou a import\u00e2ncia do tratamento psicanal\u00edtico na \u201cidade avan\u00e7ada\u201d. Em sua opini\u00e3o, o progn\u00f3stico dependeria mais da idade de quando se instalou a neurose do que da idade real do paciente. Segundo Abraham, o analista deveria possuir uma atitude mais ativa no tratamento de pessoas idosas.<\/p>\n<p>Para a Psican\u00e1lise, a quest\u00e3o do envelhecimento estaria no narcisismo. O processo de decad\u00eancia f\u00edsica (a perda da beleza, do vigor, e muitas vezes da sa\u00fade) e a proximidade da morte, provocariam um retraimento na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o mundo externo. Para Goldfarb<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a>, seria importante (e necess\u00e1rio) um Ideal de Ego estruturado para a pessoa resistir \u00e0 ferida narc\u00edsica provocada pelas perdas que imp\u00f5e.<\/p>\n<hr size=\"1\" \/>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> A Cl\u00ednica do Envelhecer (Novos Olhares). III Congresso Ibero-Americano de Psicogerontologia \u2013 Subjetividade, Cultura e poder, p. 1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Freud, Sigmund. O m\u00e9todo psicanal\u00edtico de Freud [1904]. Obras completas. Rio de janeiro, Imago, V. VII, 2006<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> <em>Apud<\/em> Dorli Kamkhagi<strong>. <\/strong>A Cl\u00ednica do Envelhecer (Novos Olhares). III Congresso Ibero-Americano de Psicogerontologia \u2013 Subjetividade, Cultura e poder, p. 6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> <em>Op. Cit<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> GOLDFARB, D. C . Corpo, tempo e envelhecimento. S\u00e3o Paulo,Casa do Psic\u00f3logo, 1998.<\/p>\n<p>* Publicado originalmente em \u00a0outubro de 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u201cdesprendimento da velhice\u201d, acho que \u00e9 assim que se chama, deve estar ligado a um desvio decisivo na rela\u00e7\u00e3o das duas puls\u00f5es postuladas por mim. A mudan\u00e7a que ocorre talvez seja muito not\u00e1vel. Tudo \u00e9 t\u00e3o interessante quanto era antes, os ingredientes tampouco muito diferentes. Mas falta uma esp\u00e9cie de resson\u00e2ncia. 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