{"id":765,"date":"2014-11-15T08:30:29","date_gmt":"2014-11-15T11:30:29","guid":{"rendered":"http:\/\/charlespennaforte.pro.br\/portal\/?p=765"},"modified":"2015-01-15T09:43:18","modified_gmt":"2015-01-15T12:43:18","slug":"clinica-das-neuroses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/?p=765","title":{"rendered":"Cl\u00ednica das Neuroses*"},"content":{"rendered":"<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O pressente artigo tem como objetivo tecer algumas considera\u00e7\u00f5es sobre\u00a0 o momento atual das neuroses, tendo como base as aulas assistidas no m\u00f3dulo Cl\u00ednica das Neuroses, ministrado pela professora Luana Ruff do Vale.<\/p>\n<p><strong>Pequeno hist\u00f3rico contempor\u00e2neo<\/strong><\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es ocorridas a partir do final\u00a0 do s\u00e9culo XX, quando Capitalismo venceu a disputa ideol\u00f3gica contra o Socialismo, trouxeram grandes impactos para a sociedade contempor\u00e2nea, principalmente a ocidental.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos da d\u00e9cada de 1980, pa\u00edses como os EUA e a Inglaterra,\u00a0 adotaram\u00a0 com mais ortodoxia os princ\u00edpios b\u00e1sicos do Liberalismo, agora sob uma nova forma &#8211; o Neoliberalismo &#8211;\u00a0 para as suas sociedades.<\/p>\n<p>Desde os anos 1930 a procura por uma sociedade mais igualit\u00e1ria ganhou for\u00e7a nos pa\u00edses desenvolvidos atrav\u00e9s de um poderoso movimento social capitaneado pelo ide\u00e1rio socialista cujo objetivo era \u201cdomesticar\u201d o capitalismo selvagem atrav\u00e9s do Welfare State (Estado do Bem-estar Social).<\/p>\n<p>Brit\u00e2nicos e norte-americanos\u00a0 voltaram a adotar, cinq\u00fcenta anos mais tarde, o Neoliberalismo como forma de \u201crecolocar\u201d a sociedade capitalista dentro da l\u00f3gica de mercadol\u00f3gica: cada indiv\u00edduo seria respons\u00e1vel exclusivamente pelo seu sucesso ou fracasso.<\/p>\n<p>Hoje os valores como solidariedade, por exemplo, passaram a n\u00e3o fazer mais parte do discurso social como uma grande bandeira a ser seguida. Sob a \u00e9gide do capitalismo neoliberal, as rela\u00e7\u00f5es sociais v\u00eam sofrendo grandes altera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Dilemas da atualidade<\/strong><\/p>\n<p>A tradicional perspectiva encontrava por Freud para as neuroses no final do s\u00e9culo XIX sofreu alguma altera\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 100 anos. O advento da P\u00f3s-Modernidade e a hegemonia incontest\u00e1vel da sociedade de mercado alteraram substancialmente os sintomas no Sujeito.<\/p>\n<p>O escritor franc\u00eas Guy Debord no seu livro Sociedade do Espet\u00e1culo (1967) aponta para a aliena\u00e7\u00e3o da vida contempor\u00e2nea burguesa. Utilizando-se das categorias centrais do marxismo, Debord desenvolveu o seu trabalho apontando, em resumo, para a coisifica\u00e7\u00e3o da vida, derivada do processo dial\u00e9tico do capitalismo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, hoje, podemos apontar para a reafirma\u00e7\u00e3o do hedonismo como forma de satisfa\u00e7\u00e3o do Sujeito. Ao contr\u00e1rio dos prim\u00f3rdios da psican\u00e1lise, quando o capitalismo criava uma din\u00e2mica mais \u201cest\u00e1vel\u201d para as rela\u00e7\u00f5es sociais e os seus impactos repousavam na perspectiva autorit\u00e1ria do n\u00facleo familiar encabe\u00e7ado pelo Pai, encontramos na atualidade um quadro diferenciado.<\/p>\n<p>A dissolu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia &#8211; enquanto n\u00facleo \u201ccoercitivo\u201d e de forma\u00e7\u00e3o do Indiv\u00edduo &#8211; configura um padr\u00e3o no momento. A busca do prazer e sua satisfa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do consumo \u00e9 outro componente importante que impacta o Sujeito na atualidade.<\/p>\n<p>Charles Melman tamb\u00e9m aponta uma nova perspectiva para a atual din\u00e2mica contempor\u00e2nea. Segundo ele:<\/p>\n<p>\u201cPassamos de uma cultura fundada no recalque dos desejos e, portanto, cultura da neurose, a uma outra que recomenda a livre express\u00e3o e promove a pervers\u00e3o\u201d [1].<\/p>\n<p>Melman aponta a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cnova economia ps\u00edquica\u201d,\u00a0 baseada:<\/p>\n<p>[na] \u201cmuta\u00e7\u00e3o (&#8230;) de uma economia organizada pelo recalque a uma economia organizada pela exibi\u00e7\u00e3o do gozo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel hoje abrir uma revista, admirar personagens ou her\u00f3is de nossa sociedade sem que eles\u00a0\u00a0 estejam marcados pelo estado espec\u00edfico de uma exibi\u00e7\u00e3o do gozo\u201d[2] .<\/p>\n<p>Como j\u00e1 apontamos no in\u00edcio do texto, a atual din\u00e2mica contempor\u00e2nea \u00e9 marcada pela supremacia do capitalismo neoliberal que explica o atual quadro de Vazio sentido pelo indiv\u00edduo de um lado e por outro, como elucida Melman,\u00a0 o do gozo acima de tudo. No momento em que tudo \u00e9 permitido pela ideologia capitalista, o sistema torna o indiv\u00edduo vulner\u00e1vel ao hedonismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>O hipercapitalismo [3]\u00a0 da atualidade exaspera a capacidade do indiv\u00edduo em gerenciar a sua pr\u00f3pria vida. O Outro encarnado na din\u00e2mica do enriquecimento\u00a0 acima de tudo regula a vida, fornecendo material ps\u00edquico intoler\u00e1vel. O ter e o mais-ter, resultam em o n\u00e3o-ter. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o tentar-para-ter-mais.<\/p>\n<p>Um aspecto importante \u00e9 que a supremacia midi\u00e1tica imp\u00f5e a l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o como a ser perseguida pelo indiv\u00edduo, uma meta. A linguagem, sob v\u00e1rias formas, assume import\u00e2ncia fundamental em tempos de p\u00f3s-modenidade.<\/p>\n<p><strong>Concluindo<\/strong><\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es ocorridas nos \u00faltimos cem anos &#8211; e com maior intensidade nos \u00faltimos trinta anos &#8211; explicam as mudan\u00e7as ocorridas na perspectiva neur\u00f3tica do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>A \u201cnova economia ps\u00edquica\u201d proposta por Melman colabora para um maior entendimento do atual momento social.\u00a0 O fato \u00e9 que a teoria psicanal\u00edtica deve estar preparada para lidar com as novas \u201cformas\u201d neur\u00f3ticas geradas pela p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>Lipovetsky, Gilles. Tempos Hipermodernos. S\u00e3o Paulo: Bacarolla, 2004.<\/p>\n<p>Melman, Charles. O homen sem gravidade &#8211; gozar a qualquer pre\u00e7o. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>[1] Homem sem gravidade \u2013 gozar a qualquer pre\u00e7o. Rio de janeiro, Cia de Freud, p.15, 2008.<br \/>\n[2] Op. Cit., p.16.<br \/>\n[3] Ver Gilles Lipovetsky. Os tempos hipermodernos. S\u00e3o Paulo: Barcarolla, 2004.<\/p>\n<p>* Publicado originalmente em 20\/04\/2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o O pressente artigo tem como objetivo tecer algumas considera\u00e7\u00f5es sobre\u00a0 o momento atual das neuroses, tendo como base as aulas assistidas no m\u00f3dulo Cl\u00ednica das Neuroses, ministrado pela professora Luana Ruff do Vale. Pequeno hist\u00f3rico contempor\u00e2neo As transforma\u00e7\u00f5es ocorridas a partir do final\u00a0 do s\u00e9culo XX, quando Capitalismo venceu a disputa ideol\u00f3gica contra o Socialismo, trouxeram grandes impactos para a sociedade contempor\u00e2nea, principalmente a ocidental. No in\u00edcio dos anos da d\u00e9cada de 1980, pa\u00edses como os EUA e a Inglaterra,\u00a0 adotaram\u00a0 com mais ortodoxia os princ\u00edpios b\u00e1sicos do Liberalismo, agora sob uma nova forma &#8211; o Neoliberalismo &#8211;\u00a0 para as suas sociedades. Desde os anos 1930 a procura por uma sociedade mais igualit\u00e1ria ganhou for\u00e7a nos pa\u00edses desenvolvidos atrav\u00e9s de um poderoso movimento social capitaneado pelo ide\u00e1rio socialista cujo objetivo era \u201cdomesticar\u201d o capitalismo selvagem atrav\u00e9s do Welfare State (Estado do Bem-estar Social). Brit\u00e2nicos e norte-americanos\u00a0 voltaram a adotar, cinq\u00fcenta anos mais tarde, o Neoliberalismo como forma de \u201crecolocar\u201d a sociedade capitalista dentro da l\u00f3gica de mercadol\u00f3gica: cada indiv\u00edduo seria respons\u00e1vel exclusivamente pelo seu sucesso ou fracasso. Hoje os valores como solidariedade, por exemplo, passaram a n\u00e3o fazer mais parte do discurso social como uma grande bandeira a ser seguida. Sob a \u00e9gide do capitalismo neoliberal, as rela\u00e7\u00f5es sociais v\u00eam sofrendo grandes altera\u00e7\u00f5es. Dilemas da atualidade A tradicional perspectiva encontrava por Freud para as neuroses no final do s\u00e9culo XIX sofreu alguma altera\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 100 anos. O advento da P\u00f3s-Modernidade e a hegemonia incontest\u00e1vel da sociedade de mercado alteraram substancialmente os sintomas no Sujeito. O escritor franc\u00eas Guy Debord no seu livro Sociedade do Espet\u00e1culo (1967) aponta para a aliena\u00e7\u00e3o da vida contempor\u00e2nea burguesa. Utilizando-se das categorias centrais do marxismo, Debord desenvolveu o seu trabalho apontando, em resumo, para a coisifica\u00e7\u00e3o da vida, derivada do processo dial\u00e9tico do capitalismo. Ao mesmo tempo, hoje, podemos apontar para a reafirma\u00e7\u00e3o do hedonismo como forma de satisfa\u00e7\u00e3o do Sujeito. Ao contr\u00e1rio dos prim\u00f3rdios da psican\u00e1lise, quando o capitalismo criava uma din\u00e2mica mais \u201cest\u00e1vel\u201d para as rela\u00e7\u00f5es sociais e os seus impactos repousavam na perspectiva autorit\u00e1ria do n\u00facleo familiar encabe\u00e7ado pelo Pai, encontramos na atualidade um quadro diferenciado. A dissolu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia &#8211; enquanto n\u00facleo \u201ccoercitivo\u201d e de forma\u00e7\u00e3o do Indiv\u00edduo &#8211; configura um padr\u00e3o no momento. A busca do prazer e sua satisfa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do consumo \u00e9 outro componente importante que impacta o Sujeito na atualidade. Charles Melman tamb\u00e9m aponta uma nova perspectiva para a atual din\u00e2mica contempor\u00e2nea. Segundo ele: \u201cPassamos de uma cultura fundada no recalque dos desejos e, portanto, cultura da neurose, a uma outra que recomenda a livre express\u00e3o e promove a pervers\u00e3o\u201d [1]. Melman aponta a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cnova economia ps\u00edquica\u201d,\u00a0 baseada: [na] \u201cmuta\u00e7\u00e3o (&#8230;) de uma economia organizada pelo recalque a uma economia organizada pela exibi\u00e7\u00e3o do gozo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel hoje abrir uma revista, admirar personagens ou her\u00f3is de nossa sociedade sem que eles\u00a0\u00a0 estejam marcados pelo estado espec\u00edfico de uma exibi\u00e7\u00e3o do gozo\u201d[2] . Como j\u00e1 apontamos no in\u00edcio do texto, a atual din\u00e2mica contempor\u00e2nea \u00e9 marcada pela supremacia do capitalismo neoliberal que explica o atual quadro de Vazio sentido pelo indiv\u00edduo de um lado e por outro, como elucida Melman,\u00a0 o do gozo acima de tudo. No momento em que tudo \u00e9 permitido pela ideologia capitalista, o sistema torna o indiv\u00edduo vulner\u00e1vel ao hedonismo contempor\u00e2neo. O hipercapitalismo [3]\u00a0 da atualidade exaspera a capacidade do indiv\u00edduo em gerenciar a sua pr\u00f3pria vida. O Outro encarnado na din\u00e2mica do enriquecimento\u00a0 acima de tudo regula a vida, fornecendo material ps\u00edquico intoler\u00e1vel. O ter e o mais-ter, resultam em o n\u00e3o-ter. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o tentar-para-ter-mais. Um aspecto importante \u00e9 que a supremacia midi\u00e1tica imp\u00f5e a l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o como a ser perseguida pelo indiv\u00edduo, uma meta. A linguagem, sob v\u00e1rias formas, assume import\u00e2ncia fundamental em tempos de p\u00f3s-modenidade. Concluindo As transforma\u00e7\u00f5es ocorridas nos \u00faltimos cem anos &#8211; e com maior intensidade nos \u00faltimos trinta anos &#8211; explicam as mudan\u00e7as ocorridas na perspectiva neur\u00f3tica do indiv\u00edduo. A \u201cnova economia ps\u00edquica\u201d proposta por Melman colabora para um maior entendimento do atual momento social.\u00a0 O fato \u00e9 que a teoria psicanal\u00edtica deve estar preparada para lidar com as novas \u201cformas\u201d neur\u00f3ticas geradas pela p\u00f3s-modernidade. Bibliografia Lipovetsky, Gilles. Tempos Hipermodernos. S\u00e3o Paulo: Bacarolla, 2004. Melman, Charles. O homen sem gravidade &#8211; gozar a qualquer pre\u00e7o. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008. Notas [1] Homem sem gravidade \u2013 gozar a qualquer pre\u00e7o. Rio de janeiro, Cia de Freud, p.15, 2008. [2] Op. Cit., p.16. [3] Ver Gilles Lipovetsky. Os tempos hipermodernos. S\u00e3o Paulo: Barcarolla, 2004. * Publicado originalmente em 20\/04\/2009.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":789,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[18,47],"class_list":["post-765","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-psicanalise","tag-charles-pennaforte","tag-piscanalise"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/765","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=765"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/765\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":768,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/765\/revisions\/768"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/789"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=765"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=765"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/charlespennaforte.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}