A Velha tática de Washington: ataques à Democracia para “promover” a Democracia: 1


 

Os séculos passam mas o método é o mesmo: desestabilização política, financiamento aos grupos golpistas e muita guerra de informações (falsas). Eis a velha tática de Washington para violar a vontade dos povos  e moldar o mundo aos seus interesses.

Um processo sob ataque permanente

Quando um governo ousa e consegue se desenvolver de maneira antissistêmica, sofre as formas de atuação para que seu processo entre em colapso. Na história mundial[1] inúmeros países tentaram caminhar fora dos “trilhos” colocados pela atuação da força sistêmica (EUA e Europa). Para tais países que conseguiram a sua “autonomia” inicial, logo as “contradições” começam a surgir e não conseguem manter seu processo antissistêmico.

Eles sucumbem depois de uma ampla rede de atuação contra antissistêmica que engloba desde o tradicional apoio a golpes políticos até os consagrados embargos econômicos.

Até a Guerra Fria  o apoio declarado a governos ditatoriais por parte de Washington era a forma de atuação mais utilizada para impedir a chegada de governos “comunistas” em várias partes do mundo. O socialismo real seria a atuação antissistêmica das nações que procuravam sair do triste legado social e econômico do colonialismo. Com o fim do socialismo real e da bipolaridade ideológica, tal mecanismo começou a perder sentido.

 

Estado Islâmico: uma criação do Ocidente

Estado Islâmico: uma criação do Ocidente

Sendo assim, os tempos mudaram e atualmente a forma mais sutil de desestabilização é também a utilização da mídia em uma escala nunca vista antes para criar e/ou aumentar fatos políticos. A revolução da microeletrônica permitiu o acesso rápido não só à informação como também à criação e difusão de notícias. Além é claro, do suporte aos “líderes democráticos” (vinculados aos interesses sistêmicos) nos respectivos países classificados como “repressivos” segundo os parâmetros ligados aos interesses dos EUA e da Europa. Países como Arábia Saudita ou Kuwait, por exemplo, sequer são citados pelo desrespeito aos Direitos Humanos ou a falta de eleições apesar de execuções sumárias, torturas etc.

 

EUA: patrocinador do Estado Islâmico ao lado da França, Grã-Bretanha e Alemanha

EUA: patrocinador do Estado Islâmico ao lado da França, Grã-Bretanha e Alemanha

A “nova forma” de atuação para provocar o enfraquecimento de governos que não fossem dóceis às potências sistêmicas teve a colaboração do professor da University of Massachusetts-Dartmouth, Gene Sharp. Sharp elaborou um livro que se tornou uma “cartilha” para a construção de “regimes democráticos” no pós-Guerra Fria para que os países se adequassem aos interesses estadunidenses e europeus.

O From Dictatorship to Democracy, livro traduzido para diversos idiomas do mundo, prega a derrubada de governos, ou melhor, a “implementação da democracia” sem a utilização de violência, mas através de atividades de desestabilização que possibilitem a destruição da credibilidade interna e externa do governo “antidemocrático” (mesmo que ele tenha sido eleito pela população e com reconhecimento internacional de lisura) no poder. Porém, sem golpe de estado. Na prática, um regime change (mudança de regime).

Sendo assim, os tempos mudaram e atualmente a forma mais sutil de desestabilização é também a utilização da mídia em uma escala nunca vista antes para criar e/ou aumentar fatos políticos. A revolução da microeletrônica permitiu o acesso rápido não só à informação como também à criação e difusão de notícias.

Existem inúmeras organizações “pró-democracia” estadunidenses e europeias que financiam dezenas de atividades em todo o mundo com a finalidade de regime change. Entre elas temos o International Republican Institute (IRI), National Endowment for Democracy (NED), Export of Democracy, Open Society Fundation e a Freedom House. Além da CIA e USAID[2].

 

Gene Sharp: o "pai" do regime change.

Gene Sharp: o “pai” do regime change.

 

Outra forma utilizada – não tão sutil – para provocar o regime change é a cold war revolucionary: destruir a estabilidade econômica e política com atos de subversão e insurreição gerando medidas violentas para serem “denunciadas” posteriormente como “uma reação desproporcional das autoridades e criando o seu descrédito[3].

Tendo como aliada a mídia conservadora ligada aos interesses sistêmicos, são propaladas informações diárias criando condições favoráveis para possíveis intervenções, sanções econômicas e destituição do governo eleito. Geralmente existe uma “pararrealidade”: o que é divulgado na mídia internacional como o “caos social”, quando verificado in loco, nota-se uma intensidade muito menor.

A onda de protestos verificada na Venezuela nos primeiros meses de 2014, por exemplo, se enquadrou nesta perspectiva ou o Brasil em junho de 2013, quando a origem dos protestos  era o aumento da passagem do ônibus e deslocou-se para uma “luta pela moralidade” insuflada pela mídia, é perfeitamente uma cold war revolucionary.

No caso venezuelano, por mais que existisse uma crise econômica no país, nada justificaria tal virulência nos protestos. Os “Fundo Abutres” procurando nocautear o governo K na Argentina ou a tentativa de um patético “impeachment” de Dilma Roussef chega às raias da esquizofrenia e que encontra eco em uma imprensa não menos esquizofrênica, são outros exemplos da tentativa de desestabilização.

Sobre os fatos reais da Venezuela é muito interessante a matéria do repórter do The Guardian, Mark Weisbrot sobre a “rebelião popular” na Venezuela de 2014. “Essas pessoas não estão sofrendo – que estão vivendo muito bem. Sua renda tem crescido a um ritmo saudável desde que o governo Chávez tem o controle da indústria do petróleo, há uma década. Eles até tem um subsídio caro do governo: qualquer pessoa com um cartão de crédito (que exclui os pobres e milhões de pessoas que trabalham) tem direito a US$ 3.000 por ano, em uma taxa de câmbio subsidiado. Eles podem então vender os dólares por 6 vezes o que foi pago, o que equivale a um subsídio de bilhões de dólares por ano para os privilegiados – mas são eles que estão fornecendo a base para  as tropas da rebelião “. [4]

Washington prontamente passou a emitir opiniões de repulsa à situação venezuelana e conclamando o país à “volta à democracia”:

Quando se trata de Venezuela, John Kerry sabe de que lado da luta de classes ele está ligado. Na semana passada, quando ele estava deixando a cidade, o secretário de Estado dos EUA aumentou o tiroteio na retórica contra o governo, acusando o presidente Nicolas Maduro de travar uma “campanha de terror contra seu próprio povo”. Também Kerry ameaçou invocar a Carta Democrática Interamericana da OEA contra a Venezuela, bem como implementar sanções”[5].

Declarações por parte dos EUA de defesa à Democracia soam como uma “joke” quando analisamos o apoio às ditaduras do Oriente Médio. O tempo da Guerra Fria acabou.

Tendo como aliada a mídia conservadora ligada aos interesses sistêmicos, são propaladas informações diárias criando condições favoráveis para possíveis intervenções, sanções econômicas e destituição do governo eleito. Geralmente existe uma “pararrealidade”: o que é divulgado na mídia internacional como o “caos social”, quando verificado in loco, nota-se uma intensidade muito menor.

A prática do regime change na Venezuela continua na pauta do Departamento de Estado dos EUA:

Claro que todos nós sabemos quem o governo dos EUA apoia na Venezuela. Eles realmente não tentam esconder: há US$ 5 milhões no orçamento federal americano de 2014 para financiar as atividades da oposição dentro do país e isso é quase certamente a ponta do iceberg – somando-se as centenas de milhões de dólares de apoio explícito nos últimos 15 anos[6].

Voltando aos Fundos Abutres, um Tribunal dos EUA (por que será?) impediu que os argentinos honrassem o acordo feito com os credores para o pagamentos de sua dívida. E um pequeno grupo contrário ao acordo (3%) conseguiu impedir que a Casa Rosada honrasse o seu compromisso. Para o deleite da imprensa pró-sistêmica, a Argentina foi  classificada em “moratória técnica”! Senhores e senhoras, a Argentina foi impedida de pagar e a declararam em “moratória”. Com isso mais classificações da “agências de risco” negativas pioraram a imagem  do país no mundo.

À Guisa de Conclusão

O que  observamos atualmente é uma ampla frente contra antissistêmica de Washington e das mídias locais procurando enfraquecer os governos progressistas. Qualquer um que não compare as notícias será vítima da “ditadura da imprensa livre”  cuja liberdade, é contar o fato de acordo com os seus interesses.

A América Latina está sendo atacada externamente e internamente.

Bibliografia

Arrighi, Giovanni et alli. Antisystemics movements. New York, Verso, 1989.

Ellner, Steve, Rethinng Venezuelan Politics. Boulder, Lynne Rienner Publishers, 2008.

Voigt, Márcio Roberto. “A Análise dos sistemas-Mundo e a Política Internacional: uma Abordagem Alternativa das Teorias das Relações Internacionais”. Textos de Economia. Florianópolis, v. 10, nº 2, 110, jul/dez, 2007.

WALLERSTEIN, Immannuel. O Declínio do Poder Americano. Rio de Janeiro, Contraponto, p. 266, 2004.

Pennaforte, Charles. Movimentos Antissistêmicos no Sistema-Mundo Contemporâneo: o caso venezuelano. Rio de Janeiro, Cenegri Edições, 2013.

Carvalho, Giane Alves de.  Os movimentos antissistêmicos: conjuntura de lutas ou impasses políticos ideológicos? In: Mediações. UFSC, v. 13, Jan/Jun e Jul/Dez, 2008.

Instituto americano CEPR, Washington. Relatório “A Economia Venezuelana nos anos de Chávez”,

Oliveira, Renata Peixoto de. Velhos fundamentos, novas estratégias? Petróleo, Democracia e a Política Externa de Hugo Chávez (1999-2010).  Universidade Federal de Minas Gerais, Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, p. 24, 2010.

 


 [1] A atuação contra antissistêmica ocorreu, por exemplo, durante a bipolaridade ideológica quando países que estavam no processo de descolonização enfrentaram a força “contra antissistêmica”: Vietnã, Angola e Moçambique, Cuba é outro exemplo de forte atuação “contra antissistêmica”.
[2] Para ver uma análise detalhada da atuação dessas entidades e organizações na atualidade, ver Moniz Bandeira. O historiador faz uma análise da atuação das táticas de desestabilização utilizadas na atualidade, principalmente na Síria e na Líbia. Moniz utiliza fontes de jornais estadunidenses, ex-agentes da CIA, diplomatas, documentos oficiais etc. A Segunda Guerra Fria (2013). Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, p.89-100.
[3] Op. Cit., 107
http://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/statistics/GSH2013/2014_GLOBAL_HOMICIDE_BOOK_web.pdf Acesso em 10/05/2014
[4] Nossa tradução do original: “These people are not hurting – they’re doing very well. Their income has grown at a healthy pace since the Chávez government got control of the oil industry a decade ago. They even get an expensive handout from the government: anyone with a credit card (which excludes the poor and millions of working people) is entitled to $3,000 per year at a subsidized exchange rate. They can then sell the dollars for 6 times what they paid in what amounts to a multi-billion dollar annual subsidy for the privileged – yet it is they who are supplying the base and the troops of the rebellion”
http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/mar/20/venezuela-revolt-truth-not-terror-campaign Acesso em 01/05/2014.
[5] Op. Cit.  Nossa tradução.  “When it comes to Venezuela, John Kerry knows which side of the class war he is on. Last week, just as I was leaving town, the US Secretary of State doubled down in his fusillade of rhetoric against the government, accusing President Nicolás Maduro of waging a “terror campaign against his own people”. Kerry also threatened to invoke the Inter-American Democratic Charter of the OAS against Venezuela, as well as implementing sanctions”.
[6] The Guardian: Apoio dos EUA aos protestos na Venezuela é um erro. Pragmatismo Político.20/02/2014
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/02/guardian-apoio-dos-eua-aos-protestos-na-venezuela-e-um-erro.html# Acesso em 09/05/2014

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