O golpe paraguaio e reação latino-americana: há ingerência externa?


O golpe paraguaio trouxa à tona uma discussão importante para alguns  setores conservadores: estaria o Paraguai perdendo a sua soberania política? Há ingerência externa? O golpe político praticado pela oposição de direita paraguaia chama a atenção pela falta de defesa do acusado, o presidente Fernando Lugo. O processo de impeachment de um presidente envolveria um ritual jurídico com tempo hábil não somente para um lado (acusação), mas também para a defesa. Algo lógico.

Outro aspecto importante é a fragilidade da sustentação política do governo de Fernando Lugo que nunca contou sequer com o apoio de um terço do parlamento. Ou seja: é impossível governar dentro do jogo democrático-burguês paraguaio. O parlamento paraguaio é golpista por excelência: é a mesma classe política que apoiou ao longo do tempo as ditaduras. Mas aí surge a pergunta: o que nós (brasileiros, argentinos, venezuelanos etc.) temos com isso?

Fernando Lugo: não agradou a velha direita paraguaia

Também surge um aspecto importante: a vida “comunitária”. O Paraguai não foi obrigado a participar do Mercosul, da Unasul, da Celac etc. Jamais e em tempo algum o Paraguai foi coagido por qualquer outra nação latino-americana a se sujeitar aos desígnios do seus parceiros.

Por outro lado, sabemos que a atuação da direita golpista latino-americana sob os auspícios de Washington sempre foi um perigo para a democracia, apesar de defender com unhas e dentes a “democracia” para os seus interesses.

Para impedir os arroubos golpistas de qualquer espectro (principlamente os tradicionais) foram criadas as “cláusulas democráticas” com o objetivo de impedir algum “retrocesso” político. Se fosse a direita a ter criado isso, ela seria perfeita: “Excelente cláusula”. Mas foi a dita “esquerda”… Então não presta ou é “ingerência externa”. Logicamente sabemos que o “golpismo” é um esporte praticado pela direita… O Paraguai assinou como todos os países o fizeram: de livre e espontânea vontade.

Sendo assim, a reação dos países latino-americanos não é “desmedida” ou “fora de propósito” e muito menos uma “ingerência externa”. Um detalhe importante que os setores conservadores não assinalam é o que está se discutindo é a forma como o impeachmentfoi feito: não houve direito de defesa. Foi “armação” como se diz no popular. Aí, entra a “cláusula democrática”. Não se quer com isso impedir os paraguaios ou qualquer outro povo de depor o seu presidente, pelo contrário. Que o processo seja feito de maneira justa.

Mas se, por exemplo, em um arroubo de “soberania” os paraguaios não aceitem mais o que assinaram? Sem problema algum. Caia fora. Já que todas as organizações latino-americanas possuem a “cláusula democrática” (ou pelo menos quase todas), que o Paraguai siga o seu caminho de maneira “autônoma”. Não terá acesso aos mercados em condições privilegiadas já que era um acordo… Trata-se de um direito inalienável.

Outra coisa preocupante são alguns desavisados tentarem criar uma equivalência com exemplos da Síria ou da Alemanha com a Grécia para confirmarem a tese da “ingerência externa” nos assuntos paraguaios. A Síria tem o direito de exterminar a sua população? Por que até o presente momento o governo sírio não parou a sua matança? A matança tem o apoio da China e da Rússia indiretamente. Sob o ponto de vista humanitário e moral, é necessário que o genocídio pare. Qual seria a equivalência com o caso paraguaio? Gostaria de escutar a explicação da similaridade entre os dois casos?

E a imposição da austeridade alemã sobre a Grécia? Seria parecido também com o caso de uma “ingerência externa”? A Grécia não faz parte da EU? Não assinou um acordo que permite a “intromissão” na sua economia? Não concorda? Que saia da EU, abandone o Euro e siga o seu caminho. Qual é a semelhança com o caso paraguaio de “ingerência externa”?

Lamentavelmente algumas posições possuem um viés conservador ao jogar por terra um trabalho de integração que só poderia ter sido colocado em prática pela esquerda em sua diversas matizes do que pela direita sempre vinculado aos interesses do norte. Eis o problema.

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