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Correio Braziliense: entrevista de Charles Pennaforte

Voto contra as potências na discussão sobre sanções ao Irã firmou a imagem do país como interlocutor confiável e autônomo, avaliam analistas

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/06/11/mundo,i=197207/BRASIL+ENTRA+NO+JOGO.shtml

Tatiana Sabadini

Publicação: 11/06/2010 09:18 Atualização: 11/06/2010 10:45

 

Para o Brasil, aproximar-se do Irã poderia representar perdas e ganhos. O país arriscou por não ficar ao lado das grandes potências na votação de sanções (1)no Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas vê a atitude ser reconhecida como corajosa. Na avaliação de especialistas, foi um sinal de integridade e de afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como mediador. O diálogo deve continuar e a diplomacia brasileira vai ter um papel importante nas discussões. A cadeira de membro permanente do conselho continua distante, mas já não parece impossível. Passar para o outro lado pode ter sido a melhor escolha para o país firmar-se de vez no cenário internacional.

De acordo com o diplomata Rubens Ricupero, embaixador do Brasil nos Estados Unidos entre 1991 e 1993, o país fez a escolha certa e preservou a possibilidade de continuar no papel de mediador. “O Brasil não tinha alternativa, da mesma forma que a Turquia, a não ser de discordar das sanções. Do contrário, teria se desmoralizado. O comportamento de nossa representante, a embaixadora Maria Luiza Viotti, foi digno, sem provocações. Suas declarações foram irrefutáveis, ao lembrar as consequências trágicas das sanções no caso do Iraque”, disse o diplomata ao Correio.

A mudança do Brasil, que geralmente tinha uma temática reservada às grande potências, surpreendeu. “Isso gerou um debate interno, mas o governo brasileiro sempre foi a favor da negociação, em primeiro lugar, e esteve ao lado da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Concordo com o ministro Celso Amorim: a partida já estava ganha, mas o Brasil manteve sua postura”, comenta Carlos Eduardo Vidigal, doutor em relações internacionais e professor de história da Universidade de Brasília.

 

A embaixadora Maria Luiza Viotti conversa com os colegas turco (de costas) e libanês durante a sessão do Conselho de Segurança que votou pelas sanções: interlocutores obrigatórios com o Irã

A embaixadora Maria Luiza Viotti conversa com os colegas turco (de costas) e libanês durante a sessão do Conselho de Segurança que votou pelas sanções: interlocutores obrigatórios com o Irã

 
 
O diálogo entre Lula e o colega iraniano, Mahmud Ahmadinejad, pode ter recebido críticas e não ter tido efeito para as grandes potências, mas serviu como afirmação. “O Brasil conseguiu se projetar mais ainda nos meios internacionais. Muita gente procura levar isso mais para o lado político interno e vê apenas o lado negativo. Mas, com a Turquia, conseguimos mostrar que existe oportunidade de negociação. Conquistamos conhecimento e um poder de barganha. Todos podem questionar o presidente, mas ele conseguiu construir uma forte credibilidade internacional”, afirma Charles Pennaforte, diretor-geral do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais.
 
Mesmo depois da posição conquistada, o Brasil ainda pode ter dificuldades para mediar uma aproximação entre o Irã e as potências. “Acredito que qualquer tipo de acordo não interessa aos Estados Unidos, mesmo se o governo iraniano abrisse mão de tudo, o que não vai acontecer. O jogo já estava estabelecido e isso atrapalhou o papel brasileiro no processo de discussão. Infelizmente, Ahmadinejad vai fechar ainda mais o cerco e acredito que em no máximo dois anos ele vai anunciar a capacidade de ter um armamento nuclear”, comenta Pennaforte.

Negócios
A boa relação com o Irã e a imposição da quarta rodada de sanções podem render bons negócios para o Brasil. De acordo com o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, as exportações devem aumentar. “Vários países devem se retrair com a sanção aplicada pela ONU. Isso abre uma porta de oportunidades para o Brasil”, avaliou Jorge ao participar do programa Bom dia, ministro, da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). O comércio bilateral duplicou nos últimos sete anos, de US$ 500 milhões para US$ 1,23 bilhão. O Irã é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil no Oriente Médio, principalmente quando o assunto é o setor alimentício. Na visita que fez a Teerã, em maio, Lula anunciou uma linha de financiamento de 1 bilhão de euros, nos próximos cinco anos, para importadores iranianos de produtos brasileiros.

1 – “Vencedor moral”
O assessor especial do presidente Lula para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, viu na votação de quarta-feira no Conselho de Segurança o fim do que chamou de “política do ‘sim, senhor” em relação às grandes potências. “Acho que se criou no Brasil a expectativa de que a única relação possível é a do ‘sim, senhor’, mas não é assim”, disse Garcia à imprensa em Buenos Aires, onde participou ontem de um seminário sobre globalização. O assessor minimizou o impacto nas relações com os EUA, que na sua avaliação “nunca estiveram tão boas”. Mas não deixou de reafirmar a diferença de pontos de vista sobre a crise iraniana, e apontou o Brasil como “vencedor moral” na votação que ampliou as sanções a Teerã. “Se o objetivo disso era frear o programa (nuclear), vai dar exatamente o contrário”, profetizou.

Rússia mantém a venda de mísseis

O voto da Rússia a favor de novas sanções contra o Irã não colocará um fim ao comércio de armas entre os dois países. A venda de sofisticados mísseis S-300 para o governo iraniano deve ocorrer em breve. Não apenas as relações comercias devem permanecer intactas. Apesar de exigir explicações sobre o programa nuclear, as autoridades russas apontaram que a parceria no setor deve continuar.

O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, declarou ontem que, apesar do embargo econômico, Moscou entregará os mísseis a Teerã, pois os armamentos não seriam de ataque. “A resolução introduz limites à cooperação com o Irã em matéria de armas ofensivas, mas as de defesa não estão incluídas”, declarou Lavrov ao visitar o Uzbequistão, durante uma reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCS). Cerca de dois anos atrás, a Rússia assinou o acordo de armas com os iranianos. No entanto, o negócio nunca foi concretizado na prática, face à pressão das grandes potências. Existe a crítica de que os mísseis podem melhorar consideravelmente as capacidades de defesa antiaéreas do Irã.

Uma usina atômica do governo iraniano está sendo construída por especialistas russos em Bushehr, no Golfo Pérsico, sob a supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA). De acordo com Konstantin Kosachev, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Parlamento russo, a construção será inaugurada no fim do mês de julho, “independentemente das sanções aplicados ao Irã”.

Para outro membro do Parlamento russo, Viktor Ozerov, se as novas medidas afetassem as transações comerciais do país, seria preciso se opor à resolução do Conselho de Segurança da ONU. “Se o texto das sanções afetarem os interesses da Rússia, então, como membros permanentes, nos simplesmente vetaríamos a decisão”, disse à imprensa local.

O Irã promete reagir ao embargo econômico. O primeiro passo é reduzir seus vínculos com a AIEA. “O Parlamento votará no domingo uma lei prioritária que estipula a redução das relações com a AIEA”, indicou Esmaeel Kosari, membro do Comitê de Segurança Nacional e Política Exterior do Parlamento, à agência Fars. Os Estados Unidos e a União Europeia não descartam a possibilidade de, no futuro, impor mais sanções unilaterais para o governo iraniano.

ISRAEL NA BERLINDA
O embaixador dos Estados Unidos na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Glyn Davies, rechaçou como “inoportuno e impertinente” o debate sobre o arsenal atômico mantido por Israel — que, embora seja membro da AIEA, não é signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP) de armas nucleares. O tema foi incluído pelos representantes árabes na agenda do Conselho de Governadores da agência, que não tratava desde 1991 da alegada existência de cerca de 200 ogivas atômicas em Israel. A política oficial do Estado judeu é de manter a “ambiguidade”: não confirma nem desmente. O embaixador do Sudão, Mahmud El-Amim, falando pelo bloco árabe, classificou Israel como “um perigo” para a vizinhança. O representante iraniano, Ali Asghar Soltanieh, cobrou dos israelenses “um compromisso internacional com valores morais”.

The Christian Science Monitor (EUA):entrevista de Charles Pennaforte

In Brazil, will BRIC summit unify or reinforce their rifts?

Os Presidentes da China e Brasil

Os Presidentes da China e Brasil

While the BRICs are four emerging economic powerhouses (Brazil, Russia, India, China), post-financial crisis differences are creating problems, says some analysts. Will today’s summit mend those rifts or widen them?

By Sara Miller Llana and Andrew Downie, Staff writer and Correspondent / April 15, 2010
Mexico City and Sao Paulo, Brazil

As the leaders of the so-called BRIC countries – Brazil, Russia, India and China – meet in Brazil’s capital today, they will try to present a united front. After all, the thinking goes, each emerging economy is better of banding together than going it alone.

In many ways, this is more than just a convenient acronym coined by a Goldman Sachs economist in 2001 for key developing nations. Each nation is a champion of a multi-polar world, a bloc that serves as an alternative to the G7. They oppose protectionism and want to sell more of their own goods. They also want to bolster trade between themselves.

But in many ways their similarities are outweighed by what sets them apart.

Their differences range from such basics as geography, to their styles of governance and the economies they run. And the members of BRIC have changed in the wake of the financial crisis. Some say that Russia doesn’t even belong in the club anymore. And so the outcome of their meeting in Brasilia today could, instead of giving them more prominence on the global stage, reinforce their rifts.

“I’d say the differences outweigh the commonalities. Even basic political structures, two non-democratic regimes and two democratic regimes. In economics, you have two raw material importers in China and India and two raw material exporters, Russia and Brazil,” says Oliver Stuenkel, a visiting professor at the University of Sao Paulo. “That limits the opportunity to get into detail. These differences limit everything.”

But Paulo Ferracioli, of the recently created BRIC Centre for Study and Research in Brazil, says he sees room for gains during this second BRIC summit (the first was last year in Yekaterinburg, Russia).
Brazilian President Luiz Inácio Lula da Silva, Russian President Dmitry Medvedev, Indian Prime Minister Manmohan Singh, and Chinese leader Hu Jintao, each share a desire for more influence than they have so far been able to wield, says Mr. Ferracioli.

“These are four countries that in the international arena all think they have a more important role to play than they have been given in the global governance system,” he says. “They want more power. It’s as simple as that. They feel they are big economies, much bigger than many European countries, for example, that are in G7.”

In that sense, one of the most important outcomes of the meeting could be how to create a united front at the upcoming G20 meeting in Canada, Ferracioli says. “If they can get together and establish a common proposal to be presented at international forums, they will be much more important than they would be individually,” he says. “Brazil has positions, India has positions, China has positions,” he says. “Maybe there are 30 points and they have 20 in common and if they can take them forward and force debate on them – leaving the diverging points aside – they will consider that a success.”

Emerging strains with Russia

But how long is success likely to be sustained, especially under strains? The economic crisis has forced them to focus on their own domestic problems. Each is contending with rising inflation, particularly Russia. “The differences are becoming more visible again,” says Mr. Stuenkel. “I don’t think they are all even emerging, Russia is not emerging and China can’t be regarded as an unprivileged nation. There are commonalities between China, India, and Brazil in that they are all growing quickly. But Russia faces incredible challenges.”

Another main obstacle is Brazil’s desire to take a permanent seat on the UN Security Council. It’s been trying to shore up support but the Chinese are not interested in changing the status quo. “That might not be in China’s interests. These topics need to be addressed more deeply. What they will want to do is sit down and debate them,” says Charles Pennaforte, the director general of the Center for Studies on Geopolitics and Foreign Affairs in Rio de Janeiro, and author of the book “China, 21st Century Giant.”
What BRIC means at home for each nation differs too.

What Brazil wants?

Brazil, for example, probably seeks to deepen its relationship with BRIC partners, says Michael Shifter, the president of the Inter-American Dialogue in Washington. “That reflects their vision of themselves as a global player. But there is a lot of pressure for them to focus a lot more on South America, and ensure there is stability and cooperation in the Western hemisphere,” Mr. Shifter says. “The BRIC meeting highlights the challenge of how to mange the new global role that I think it relishes, but at the same time exercise responsibility closer to home where there is lots of turbulence. … There is a risk of them stretching themselves too thin.”

And some just dismiss the concept outright. Eric Farnsworth, vice president of the Council of the Americas, says that it’s useful inasmuch as developing country leaders can gather together and exchange views, thereby raising their own profiles in a sense. “But my personal view is that whole BRIC formulation is artificial,” he says. “There are four countries that have nothing in common.

Entrevista em  15/04/2010.

http://www.csmonitor.com/Money/2010/0415/In-Brazil-will-BRIC-summit-unify-or-reinforce-their-rifts

O IRÃ E OS AITAOLÁS*

“Mudança para os pobres significa comida e empregos, não um código de vestuário descontraído ou recreações diversas… A política no Irã é muito mais sobre guerra de classe do que sobre religião”.
Editorial do Financial Time, 15/Junho/2009

O Irã conhecido também na Antiguidade como Pérsia, entrou para o noticiário internacional há exatos trinta anos. Em 1979, o líder aiatolá Khomeini, exilado na França, comandou o fim da monarquia liderada pelo xá Reza Phalevi  e apoiada pelos EUA desde os anos 1950.
Desde então, inúmera análises e abordagens são feitas sobre o regime iraniano e suas influências sobre o Oriente Médio e sobre os grupos fundamentalistas que lutam contra o ideário capitalista-ocidental nas sociedades muçulmanas. Começaremos com um pequeno resumo histórico do período anterior à chegada dos xiitas ao poder no Irã através do aiatolá Khomeini.

O Xá e a Revolução

Após a derrubada da dinastia Qadjar nos anos 1920, subiu ao poder Reza Pahlavi. A existência de amplas reservas de petróleo levaram o Reino Unido e a União Soviética a invadirem o país durante a Segunda Guerra Mundial. Sob a pressão das potências militares, Reza Phalevi foi forçado a abdicar o poder a favor de filho, Mohammed Reza Phalevi. O objetivo da renúncia ao poder era de que o xá Phalevi proporcionasse maiores facilidades na exploração dos recursos petrolíferos às potências.
Contudo, a Anglo-American Oil Company foi nacionalizada em 1953 e abriu sérios conflitos com as potências ocidentais. O xá e o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh entraram em conflito, gerando a deposição do último e sua prisão. Tal fato demonstrou que os interesses das potências ocidentais possuíam grande influência nas decisões políticas iranianas e não combinavam com propostas nacionalistas.
Até 1979 o xá Reza Phalevi procurou modernizar as estruturas sociais da sociedade muçulmana através da importação de modelos ocidentais. Ao mesmo tempo, tornou-se aliado dos EUA. O confronto com os religiosos conservadores foi inevitável. No campo econômico, a situação deteriorou-se durante esse período e provocou o empobrecimento da população. A corrupção ganhou ímpeto.
Do exílio na França, o aiatolá (algo como “expert” em religião) Khomeini começou a comandar as forças opositoras ao regime pró-EUA. Peridiodicamente Khomeini tinha os seus discursos gravados e levados para o Irã e distribuídos nas universidades. Com o quadro social e econômico deteriorado, as palavras de Khomeini ganharam eco em toda a sociedade. A “modernidade” social era mal vista é pelos religiosos.
Em 11 de fevereiro de 1979, o regime liderado pelo xá Reza Phalevi chegou ao fim. Apoiado pela maioria da sociedade, Khomeini representou a chegada ao poder do grupo xiita. No poder, os xiitas tornaram o país uma república islâmica teocrática.  Phalevi fugiu para o exílio nos EUA. O modelo de governo xiita é inspirado nas interpretações conservadoras do Alcorão e o controle político fica nas mãos do clero.
As relações com os EUA foram rompidas imediatamente após o governo revolucionário chegar ao poder. Ainda, em 1979, no auge da histeria produzida pelo fim do regime de Reza Phalevi, estudantes invadiram a embaixada dos EUA em Teerã. Este fato tornou-se um grande problema diplomático criado durante a administração Jimmy Carter. Mais de um ano depois o caso foi solucionado com a devolução dos reféns norte-americanos.  Contudo, o desgaste com os EUA foi um fato terrível.
Mesmo com a morte do aiatolá Khomeini em 1989, as relações bilaterais não foram restabelecidas entre os dois países. A chegada de Barack Obama em 2009 à Casa Branca parece iniciar uma nova etapa nas relações Irã-EUA. Contudo, os iranianos ainda alimentam sérias desconfianças em relação aos EUA.

As Influências da Revolução Iraniana no Oriente Médio

Sob o ponto de vista geopolítico e ideológico, a revolução xiita iraniana provocou um grande impacto no Oriente Médio. Contudo ela foi ofuscada pelo grande embate ideológico da Guerra Fria – o conflito entre o capitalismo e socialismo –  que durou até os anos 1990.
No Oriente Médio, os xiitas alcançaram uma posição de destaque no mundo muçulmano. Dentro do Islamismo, os xiitas correspondem a 20% da população e os sunitas ficariam com o percentual restante.  Na prática, os sunitas são identificados por suas posições moderadas dentro do islamismo, inclusive possuindo vários governos como, por exemplo, o da Arábia Saudita, aliado aos EUA. Pelo lado xiita, a imprensa ocidental os coloca como “fundamentalistas” por assumirem posições “ puristas” na interpretação do Alcorão.
A consolidação da hegemonia política xiita no Irã ocasionou grandes ecos no Iraque e nos grupos palestinos que desde 1948 lutam por parte dos seus territórios de volta. A Guerra Irã-Iraque (1980-1988) foi o exemplo mais claro da força ideológica do islamismo xiita iraniano.
No Iraque, o líder Saddam Hussein contou com o apoio dos EUA para combater os xiitas iranianos. Na prática, o objetivo era enfraquecer a força dos xiitas ou, quem sabe, até mesmo derrotá-los.  Pelo lado iraquiano, o seu grupo xiita localizado ao norte passava a contar com um poderoso aliado para a tomada do poder e, até mesmo, a divisão do país em dois. A guerra e o apoio dos EUA foram muito bem vistos.
Com os EUA e a URSS atuando nos bastidores, a guerra durou quase uma década e provocou quase um milhão de mortos nos dois lados. Nenhum dos dois países logrou a vitória e o regime fundamentalista iraniano não foi enfraquecido.
Nos campos de assentamentos palestinos, o exemplo xiita ganhou admiradores e seguidores. O Hezbollah (Partido Deus) é o principal exemplo da influência iraniana na região. O apoio financeiro do Irã é fundamental na atualidade para vários outros grupos.

O Irã na Atualidade

Com a morte do aiatolá Khomeini em 1989, outro aiatolá o sucedeu: Ali Khamanei. Khamanei ocupa o cargo de chefe de estado ou Guia Supremo do Irã. O Guia Supremo é eleito por Assembleia de Peritos para um mandato vitalício.
O poder executivo é desempenhado pelo presidente que é eleito por sufrágio universal a cada quatro anos. Contudo, o Guia Supremo é quem de fato comanda toda a estrutura política do país. Em 2005, Mahmoud Ahmadinejad foi eleito presidente e desde então, destacou-se por inúmeras declarações polêmicas e antiocidentais, entre elas a de que o holocausto seria uma “invenção”… dos judeus. Também durante a sua primeira administração, o Irã ampliou o seu programa nuclear e entrou em choque com a comunidade internacional, na verdade contra os EUA, que insistem em “indicar” quem pode ou não possuir a energia nuclear.
O programa nuclear que é declarado por Teerã como para “fins pacíficos” vem provocando sanções da ONU desde 2006 apesar de, por exemplo, Israel possuir material nuclear na região e os EUA nunca terem se pronunciado contra da mesma maneira que ocorre com o Irã.
A política externa de Teerã dos últimos tem procurado levar o Irã a sair do isolamento internacional gerado pela revolução islâmica de 1979. Ahmadinejad tem feito constantes viagens pelo mundo, inclusive para a América Latina com o objetivo aumentar a projeção política do país. Na América Latina, a Venezuela fechou várias parcerias com o regime de Teerã para o desespero dos EUA.
Em junho de 2009, Ahmadinejad conseguiu a sua reeleição em eleições que foram classificadas pela oposição com fraudulentas. Os refomistas liderados por Houssein Mousavi acusaram  que a vitória de Ahmadinejad teria sido fraudulenta, ocasionando a primeira grande onda de protestos  desde 1979. Entretanto, nenhuma prova concreta foi obtida, apesar das pesquisas eleitorais apontarem a vitória de Ahmadinejad.
O fato é que o Irã está passando por transformações internas que estão colocando conservadores e reformistas em campos cada vez mais polarizados. O caráter hermético da sociedade iraniana pós-revolução gera um grande número de elucubrações que estão baseadas nos preceitos ocidentais. Pensar o Irã sob tais modelos, fatalmente gerará mais dificuldades de entendimento da realidade iraniana. O ponto pacífico é que, neste momento, a sociedade iraniana está procurando por maior “flexibilização” interna. Fato que não necessariamente está ligado a um pretenso processo de “ocidentalização”. Parece que o que falta aos grupos políticos que compõem o Irã islâmico da atualidade é encontrar o ponto de equilíbrio no projeto implementado há trinta anos.
Do lado ocidental, especificamente dos EUA, o interesse pelo fim do regime xiita é um dos grandes sonhos do Tio Sam. Sem os xiitas em Teerã, o Oriente Médio seria definitivamente mais um espaço de consumo e de investimentos financeiros capitalistas.

* Publicado na revista Conhecimento Prático- Geografia, nº 27, Escala Educacional.

Bem-vindo!

Charles Pennaforte

Charles Pennaforte

É com grande satisfação que apresentamos o nosso novo site. Desde 2001 quando o website foi criado não passávamos por uma transformação radical no lay-out. Para nossa mudança, escolhemos o formato Wordpress por ser moderno e ágil. A ideia incial do website continua a mesma: um pouco de nossa história e de nossos artigos.

Colunista da revista Geografia

Charles Pennaforte é o novo colunista da revista Conhecimento Prático – Geografia.  O atual número da revista conta com o artigo “O Irão e os Aiatolás”.

Entrevista Globo.com: Charles Pennaforte

Cúpula das Américas deve servir para ‘quebrar o gelo’ entre países

http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1089756-5602,00-CUPULA+DAS+AMERICAS+DEVE+SERVIR+PARA+QUEBRAR+O+GELO+ENTRE+PAISES.html

18/04/2009

Analistas veem com otimismo mudança de postura dos EUA.
Cuba, que é vetada de reunião, deve canalizar atenções em Trinidad.

Dani Blaschkauer Do G1, em São Paulo

Se “Cúpula das Américas” pode parecer um assunto um tanto monótono e burocrático, vamos colocar da seguinte forma: este quinto encontro entre as nações do continente vai servir basicamente como um primeiro encontro entre duas pessoas. E o encontro aqui citado pode ser visto tanto entre empresas como pessoal.

Analistas ouvidos pelo G1 acreditam que a quinta edição, aberta na sexta-feira (17), trará de novo a postura mais ‘humilde’ dos Estados Unidos, tudo para que possa se aproximar não de meia dúzia de nações, mas de quase todas.

Foto: AP

No caso, e apenas para ilustrar o que deve acontecer de prático no encontro em Port of Spain, em Trinidad e Tobago, é o caso de amigos tentarem ‘desencalhar’ duas pessoas conhecidas entre si com um encontro em um restaurante. Tudo para que ambos, no mínimo, se transformem em bons amigos.

A Cúpula das Américas chega a sua quinta edição. Iniciada em 1994, em Miami, e realizada em média a cada quatro anos (as outras foram em 1998, 2001 e 2005), engloba os países com chefes de Estados eleitos democraticamente. Daí a exclusão de Cuba dos encontros. Daí mais uma razão para os conflitos.

Assim sendo, Cuba acaba sendo um ponto em conflito para que o jantar entre as pessoas (no caso, nações) possa se tornar um sucesso. No último dia 13, os EUA levantou restrições de viagens à ilha e de remessas de dinheiro feitas por cubano-americanos para suas famílias que moram em Cuba, entre outras ações. O embargo comercial, porém, segue em pé. Assim como as relações tumultuadas entre os países bolivarianos (leia-se Venezuela, Bolívia e Equador).

Seguindo com a ilustração: veja a reunião de líderes como um jantar entre duas pessoas, no caso Estados Unidos e Venezuela, e que foi promovido entre os amigos mais próximos de cada um deles, no caso, Chile, Brasil, Bolívia e Equador, que também estarão sentados à mesa do restaurante para ajudar a ‘quebrar o gelo’.

Para ajudar a quebrar barreiras colocadas anteriormente por relações que não deram certo, principalmente por conta da postura do ex-presidente americano George W. Bush, Barack Obama, representando os norte-americanos, não vai com um carro esportivo com a capota levantada, terno e gravata de seda e o som estourando em decibéis. Mas de boné, calça de sarja, camiseta pólo e com um sorriso aberto. No som, algo mais próximo de MPB. Do outro, Hugo Chávez, representando logicamente a Venezuela, e mais Bolívia e, claro Cuba, vem com sua roupa militar ou vermelha. Cara sisuda, não sabendo exatamente o que esperar do outro lado, já que nos últimos oito anos (duas cúpulas) sempre se acostumou a ver e não ouvir Bush.

“Os EUA não chegam com um plano pré-concebido e já costurando com seus aliados mais próximos para traçar o plano deles meio que na marra. Isto é uma mudança importante. Esta mesma postura foi tomada na Otan e no G-20. Os EUA mais ouviram do que levaram coisas prontas. Este é um ponto importante na diplomacia americana. Nas últimas décadas os EUA chegaram com uma proposta já fechada”, afirmou Luiz Augusto Estrella Faria, professorde Relações Internacionais e Economia da UFRGS. “Vai ser um começo diferente na relação principalmente entre Chávez e Obama, diferentemente do que foi entre Chávez e Bush. Agora, Obama vai ouvir. Não quer dizer que ele vai acreditar ou colocar em prática, mas vai ouvir”, completou.

O professor Rafael Duarte Villa, professor de relações internacionais do departamento de ciências polícias do instituto de relações internacionais da USP, acredita que a quinta edição da cúpula servirá para as partes interessadas ‘trocarem os cartões de visita’.

“Sem dúvida o ponto diferente deste encontro é que deixa de lado a discussão sobre algumas temáticas tradicionais de outros encontros, fundamentalmente como sobre economia, sobre zona de livre comércio, narcotráfico, terrorismo. O centro da agenda é Cuba e a possibilidade de reintegração dela ao conjunto interamericano”, afirmou. “Os EUA precisam dizer para Chávez a mesma coisa que disse o (presidente da Espanha, José Luis Rodríguez) Zapatero quando começou o seu governo. A época de (ex-presidente espanhol José María) Aznar com Chávez foi de enfrentamento. Quando começou, Zapatero disse inteligentemente para Chávez para começarem do zero. Pode ser uma atitude também dos países bolivarianos. Um processo de aproximação com os Estados Unidos”, disse.

Charles Pennaforte, diretor do Centro de Estudos em Geopolitica e Relacões Internacionais do Rio de Janeiro (Cenegri), crê que os Estados Unidos, ou basicamente Barack Obama, estão no caminho certo com relação à América Latina.

“A ideia do governo Obama é apagar a tradição do período Bush, que relegou para o segundo plano a América Latina”, afirmou. “A discussão tende a avançar, o encontro vai ser positivo porque será o primeiro encontro geral de Obama com os outros governos da América Latina. A Venezuela ainda é reticente, mas será um exercício de diplomacia de Obama. A marca de Chávez é a retórica antiamericana, mas Obama é esperto neste aspecto, ele tentará apagar este período anterior do Bush”, disse.

Todos estão de acordo que mudanças não devem acontecer a curto prazo, que a Cúpula não trará alterações nos rumos das negociações a partir das próximas semanas. Assim sendo, o melhor é que cada um continue enviando flores e chocolates para os outros. Ao menos mal não vai fazer.

Entrevista Estado de SP: Charles Pennaforte

Brasil pode integrar missão de paz da ONU no Sudão

15/12/2006

http://www.estadao.com.br/arquivo/mundo/2006/not20061215p54143.htm

País vem se destacando em negociações sobre Darfur. Exército garante ter tropas prontas; Itamaraty não nega sondagem, mas diz que não houve convite formal

O Brasil foi sondado pelo Department of Peacekeeping Operations (DPKO) da Organização das Nações Unidas e pode utilizar a experiência do Exército no Haiti, onde atua desde 2004, e vir a integrar a missão de paz da ONU para o Sudão (UNMIS). A informação é de um militar brasileiro, que trabalha há mais de um ano na inteligência das Nações Unidas em Cartum, capital sudanesa, e que ajudou na elaboração dos acordos de paz na região.

Em encontro com jornalistas em São Paulo, o general Augusto Heleno Ribeiro, ex-comandante da missão da ONU no país caribenho (Minustah), defendeu a participação do País em novas missões, afirmando que “as tropas brasileiras estão muito preparadas para esse tipo de missão” e que “já se fala que o Brasil tem vocação para ser tropa de paz”.

Há atualmente 24 militares e quatro civis brasileiros atuando como observadores da ONU no país africano, sem a participação de tropas. Desde fevereiro de 2003, milícias árabes apoiadas pelo governo promovem um conflito étnico em Darfur, no oeste sudanês, que já deixou mais de 2,5 milhões de deslocados e 200 mil mortos, o que é considerado pelas Nações Unidas o primeiro genocídio do século XXI.

Na quarta-feira, o Conselho de Direitos Humanos da organização decidiu enviar uma missão a Darfur para avaliar a real situação do Sudão. O Brasil, que nos últimos dias vêm resistindo às evidências apresentadas pelo alto-comissariado sobre o envolvimento do governo sudanês nos massacres, torturas e prisões de civis, e se absteve de votar em uma resolução que condenava o governo, declarou-se “satisfeito” com a nova decisão, assegurando que teve um papel importante para se alcançar esse consenso.

O primeiro contingente brasileiro para Darfur, com no mínimo 30 homens, seria de Goiás, acredita o brasileiro que está no Sudão e foi ouvido pelo Portal Estadão.com.br. Mas, diz ele, depende muito da situação dos efetivos de Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro, que já integraram a Minustah.

O Itamaraty diz que não pode negar que tenha havido alguma especulação para que o Brasil participe da missão, mas que ainda não recebeu um convite formal para integrá-la. O diplomata Fábio Frederico, da assessoria de imprensa do Ministério de Relações Exteriores, informa que o próprio ministro Celso Amorim já foi questionado sobre esta possibilidade, e que disse na ocasião acreditar que ênfase do País deva ser a missão de paz no Haiti, comandada pelo Brasil, e para a qual, segundo o Itamaraty, não há um plano de retirada.

De acordo com o Centro de Comunicação Social do Exército (Cecomsex), poderia vir a integrar uma nova missão de paz o 19º Batalhão de Infantaria Motorizado de São Leopoldo (RS) que tem permanentemente cerca de 1,2 mil homens direcionados para este tipo de ação. O Brasil participa atualmente de missões de paz em nove países do mundo, incluindo tropas no Haiti e no Timor Leste.

Segundo o militar brasileiro no Sudão, apesar de haver “vontade” do ministério de Relações Exteriores em participar, algumas questões técnicas impediriam o envio de tropas à África, como a necessidade de novos uniformes devido ao calor (a capital sudanesa é considerada a mais quente do mundo) e a aquisição de equipamentos adequados ao deserto. Entre outros fatores que poderiam contar contra a participação brasileira, aponta este militar, estão a experiência negativa do Haiti junto à opinião pública brasileira e o alto risco de morte de capacetes azuis, “pois na África o conflito é tribal e há amplo desrespeito aos direitos humanos”.

Apesar de não ter havido uma consulta formal, o Exército brasileiro garante estar pronto para integrar mais uma missão de paz. O comandante do Exército brasileiro, general Francisco Roberto de Albuquerque, em entrevista a jornalistas durante a formatura de 2,8 mil soldados em Taubaté (SP) em agosto, afirmou que “a credibilidade do Exército brasileiro é tão grande no mundo” que o comandante das Forças Armadas dos Estados Unidos lhe disse que as tropas brasileiras são “excelentes” e que “estão prontas para atuarem em qualquer país”. “Os soldados brasileiros não são soldados de birô, não são soldados só de formatura, são soldados de ação, resultado e vontade, soldados que querem morrer pelo Brasil e têm de estar prontos para qualquer tipo de ação. O brasileiro é um homem multidisciplinar e pronto para qualquer missão a ser cumprida”, afirmou ele.

Na época, cogitava-se a possível participação de tropas brasileiras na missão de paz da ONU para o Líbano. Especialistas ouvidos pelo Portal Estadão acreditam que o envio de tropas ao Líbano não se formalizou, dentre outros motivos, por ser uma decisão política, que necessita da aprovação do Congresso Nacional, o que era difícil de ocorrer em um período pré-eleitoral.


Especialistas criticam

Especialistas acreditam que não seria benéfico para o Brasil integrar a missão de paz para Darfur e que as especulações sobre o assunto devem-se ao fato do Brasil estar em uma “busca desenfreada por um assento permanente no Conselho de Segurança”.

Gilberto Sarfati, mestre pela Universidade Hebraica de Jerusalém e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), diz que “o risco de uma operação militar em Darfur é altíssimo”, tanto do ponto de vista militar quanto político, e que “este seria o último lugar do planeta – até mesmo o Líbano seria melhor – para onde eu mandaria um contingente significativo, aceitável para manter a candidatura ao Conselho de Segurança “. Ele entende que “um fracasso poderia minar o apoio de outros países à candidatura brasileira, internamente e externamente”.

Sarfati lembra o histórico de fracassos da ONU na África, como as missões na Somália em 1992, Ruanda em 1994 e Serra Leoa, em 2000. “Ou seja, não já razões para acreditar que Darfur será mais fácil, ao contrário”.

Doutor em ciência política e ex-assessor do ministério da Defesa entre 2001 e 2002, além de coordenador da graduação e de pós-graduação do curso de relações internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Gunther Rudzit não acredita na possível participação brasileira, pois acha muito difícil os militares brasileiros aceitarem. “Nós mal estamos dando conta do Haiti, que é muito menor e com problemas muito menores. Por mais que o governo e os militares neguem, a coisa no Caribe está fora do controle, não há previsão de estabilização daquele país. Segundo, que não há espaço no orçamento para outra missão. Então, acho difícil nós nos atolarmos no Sudão. Ainda bem”, diz ele.

Se a intenção do Brasil é conquistar um assento no Conselho de Segurança, o envio de tropas ao Sudão se justifica. Essa é a visão de Charles Pennaforte, mestre em geografia pela Universidade de Havana e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (Cenegri), com sede no Rio de Janeiro. Para ele, a atuação brasileira em missões de paz é uma forma aumentar o seu espectro de influência na direção deste objetivo. Ele questiona, porém, o ônus político da participação, “já que ao participar destas missões aumenta a possibilidade de mortes e atritos de toda ordem com os sudaneses”.